A tragédia da genialidade alemã

Em The German Genius, o inglês Peter Watson faz extensa compilação de contribuições feitas pelos germânicos nos campos da filosofia, teologia, matemática, ciências naturais e sociais e da arte

Brian Ladd, The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

Na virada do século 20, quase todos concordavam que havia algo especial a respeito dos alemães. A filosofia deles era mais profunda - até o ponto de um certo exagero. O mesmo poderia ser dito de sua música. Seus cientistas e engenheiros eram claramente os melhores. Seus soldados eram insuperáveis.

Mas esta superioridade alemã foi um presságio positivo ou negativo para o século que se iniciava? Alguns estrangeiros fizeram sombrios alertas, enquanto outros se mostraram admiradores entusiasmados dos alemães. O genro britânico do compositor Richard Wagner, Houston Stewart Chamberlain, chegou até mesmo a escrever um extenso livro argumentando que os alemães seriam os únicos herdeiros legítimos das civilizações clássicas de Grécia e Roma. E muitos alemães concordaram prontamente.

Depois do início da 1.ª Guerra Mundial, em 1914, os intelectuais alemães se reuniram para defender, indignados, uma cultura superior sitiada por bárbaros. Thomas Mann, por exemplo, estava longe de ser um nacionalista ardente, mas escreveu longamente sobre a necessidade de defender a profundidade cultural única da Alemanha. Mann se arrependeu de tais comentários muito antes de 1933, quando um grupo mais virulento de chauvinistas alemães o obrigou a se exilar. No início de 1945, já na Califórnia, ele leu a desafiadora proclamação de Joseph Goebbels na qual o nazista afirmava que a grandeza nacional dos alemães era o motivo pelo qual um mundo invejoso havia se unido contra eles. Mann foi honesto o bastante para confessar, em seu diário, que esta mensagem era "mais ou menos idêntica ao que escrevi 30 anos atrás".

Foram os nazistas, é claro, que tornaram para nós tão difícil reconhecer o que Peter Watson chama de "genialidade alemã". Goebbels estragou o rótulo quando vendeu Hitler como a apoteose da cultura alemã. Um grande número de alemães e (pelos motivos opostos) uma quantidade considerável de estrangeiros prontamente concordaram com Goebbels. Watson, jornalista britânico e autor de diversos livros sobre a história cultural, gostaria que deixássemos os nazistas de lado e reconhecêssemos que nosso mundo moderno - ao menos o mundo das ideias - é, em grande parte, uma criação alemã. Mas, como ele poderia ter aprendido com seu fictício compatriota Basil Fawlty, é inútil pedir a nós que "a guerra não seja mencionada!"

Panteão. The German Genius (Harper Collins, 964 págs., US$ 35) é uma extensa compilação de contribuições essenciais feitas pelos alemães nos campos da filosofia, teologia, matemática, das ciências naturais e sociais e da arte desde 1750. Watson celebra um vasto panteão de pensadores criativos, sem se demorar muito nas considerações sobre cada um deles. Talvez o nome mais importante dentre os que figuram nesta seleção seja o de Immanuel Kant, que explorou os limites do racionalismo iluminista sem devolver a autoridade à religião revelada. Desde então, defende Watson, os alemães estiveram na vanguarda da sondagem das profundezas da mente e do corpo do homem na busca da verdade e de um sentido para a existência.

Watson nos lembra que a era de Kant produziu (entre tantas outras coisas) as sinfonias de Haydn, a poesia de Goethe, a descoberta da história nacional por Herder, e a arqueologia da arte antiga proposta por Winckelmann - esta última anunciando o início do que Watson chama, em seu subtítulo, de "terceira renascença" (na mesma linhagem daquelas observadas nos séculos 12 e 15). Muito antes de Charles Darwin, os alemães mostraram que o mundo natural era o palco de uma mudança incessante. O mesmo poderia ser dito da sociedade humana: devemos a eles nosso conceito de história. O romantismo e a erudição dos alemães instalaram firmemente a verdade e a criatividade dentro da mente humana. Posteriormente, Hegel, Marx, Nietzsche e Freud buscaram um sentido num mundo em movimento, em meio ao qual luzes menos brilhantes cunharam suas teorias raciais a partir de uma mistura fatal de biologia e filologia.

The German Genius é um livro de proporções monstruosas, misturando uma defesa apaixonada com curiosidades biográficas em meio a resumos sucintos de ideias extremamente difíceis. A gama de temas é impressionante, abrangendo desde pintores até físicos, e inclui nomes importantes que a maioria de nós só deve ter ouvido nas aulas de ciências e, ainda assim, sob a forma de unidades de medida: Hertz, Mach, Röntgen - antes de Hitler, as cerimônias do Prêmio Nobel eram dominadas pelos alemães. Sob alguns aspectos, este é também um livro bastante germânico: extenso, sério, trabalhoso. Ainda assim, não está à altura dos padrões de exatidão da academia alemã (e nem dos padrões de brilhantismo da narrativa britânica), recorrendo principalmente ao relato de outros estudiosos a respeito dos grandes pensadores em questão, e citando muito mais as fontes secundárias do que as obras "geniais" originais.

Frequentemente, Watson insiste para que reverenciemos pessoas ou livros "hoje reconhecidos", "amplamente considerados" ou "geralmente tidos" como brilhantes. Os leitores podem se cansar de tantas sugestões sobre o que devem pensar. Na verdade, Watson nos proporcionou uma espécie de Dicionário das Biografias Alemãs, junto com um número excessivo de nomes citados.

Foram muitos os gênios alemães. Mas o que foi "a genialidade alemã"? Para compreender o que a Alemanha teve de especial, precisamos saber mais do que aquilo que Watson nos conta a respeito do mundo que produziu tais pensadores. O autor nos traz algumas dicas valiosas, insistindo, por exemplo, na importância do revival religioso dos séculos 17 e 18, conhecido como Pietismo, que insistia aos fiéis para que se dedicassem a melhorar a vida terrena. Ele certamente tem razão ao enfatizar a herança protestante da Alemanha (e os muitos filhos de pregadores que povoam suas páginas), mas o protestantismo secularizado também moldou outros países - principalmente a Grã-Bretanha, onde católicos e judeus desempenharam um papel mais discreto do que na Alemanha.

Educação. Mais útil é a ênfase conferida pelo autor ao papel desempenhado pelas universidades na criação de novos conhecimentos e de uma nova classe definida pela educação. Em Göttingen e Halle no século 18, e em Berlim e Bonn no século 19, a Alemanha inventou a universidade moderna, combinando ensino e pesquisa tanto na área das humanidades quanto na das ciências - numa época em que Harvard e Oxford eram conservadoras e orientadas pela teologia. Os cidadãos formados pelas universidades se transformaram nos funcionários de uma burocracia especializada, e seu trabalho nos laboratórios e arquivos fez da pesquisa "uma forma rival de autoridade no mundo". As universidades também consagraram um novo ideal de cultivo individual (a palavra alemã fetichizada é "bildung").

De Kant a Mann, os alemães adotaram esta "forma secular de Pietismo", voltando-se para o interior com o objetivo de encontrar verdades que não estivessem ancoradas na razão nem na revelação - e com frequência, como Mann em 1915, escolhendo a integridade espiritual em vez da bagunçada política liberal.

Este é o individualismo subjetivo moderno, conforme exposto por filósofos como Martin Heidegger. Mesmo que Heidegger não tivesse sido um nazista, ainda teríamos de nos perguntar se Hitler foi a nêmesis ou o ponto culminante da genialidade alemã. Assim como Mann teve de reconhecer em Goebbels um filho bastardo, Watson sabe que a Alemanha não pode se dissociar dos nazistas. Ele toma emprestadas muitas teorias diferentes e contraditórias sobre a catástrofe alemã, sugerindo ao mesmo tempo que a classe média educada foi fraca demais para deter Hitler, que ela abdicou da responsabilidade de fazê-lo e que seus ideais antipolíticos ensinaram um país a receber de braços abertos as promessas de uma comunhão redentora feitas por um charlatão.

Mas nenhuma história das ideias pode explicar a tragédia da genialidade alemã. Hitler pode ter se considerado um grande pensador, mas seu sucesso decorreu de seu brilhantismo nas táticas politicas durante um período de dificuldades. Os intelectuais o admiravam (ou temiam) por sua capacidade de seduzir milhões de eleitores que nada sabiam a respeito de Kant ou Heidegger. Watson nos apresenta uma compilação de ideias alemãs; montar uma história da genialidade alemã seria uma questão diferente e mais complexa. Seus capítulos sobre a angústia dos intelectuais alemães do período pós-guerra nos lembram de que ele está muito distante da baboseira mística de seu compatriota Houston Stewart Chamberlain. Ainda assim, sua tentativa de exaltar um caráter nacional sugere que ele não está oferecendo algo muito diferente para nossa época de contenção.

BRIAND LADD, JORNALISTA E SOCIÓLOGO, É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE THE GHOSTS OF BERLIN (CHICAGO UNIVERSITY PRESS) E URBAN PLANNING AND CIVIC ORDEN IN GERMANY (HARVARD UNIVERSITY PRESS)

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