A tradução de um artista

Depois de O Aborto dos Outros, com o qual ganhou menção honrosa no É Tudo Verdade, a diretora Carla Gallo muda o tom e aborda um tema aparentemente mais leve. Aparentemente. Como ela própria explicou, em Assim É, Se lhe Parece seu objetivo é "traduzir" Nelson Leirner, um dos mais importantes artistas visuais contemporâneos do País. Como se traduz um artista identificado com a vanguarda, que trabalha em múltiplos suportes e extrapola seus limites? Certamente não por meio de um documentário "tradicional".

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2011 | 00h00

Pintor, desenhista, cenógrafo, professor, autor de happenings e instalações. Como dar conta de tanta complexidade? Não se trata apenas de "passar" Nelson Leirner pela câmera, entrevistando-o, mostrando seu trabalho ou colhendo depoimentos de colegas e críticos sobre ele. Assim É, Se lhe Parece, até pelo objeto - o "sujeito" -, é um projeto mais arriscado da diretora. Em Aborto dos Outros, a força estava no tema e a forma andava, por assim dizer, a reboque, mas é verdade - tudo! - que Carla buscava a eficiência da linguagem para tornar mais contundentes as experiências de suas mulheres. Buscava, e conseguia. Em Assim É, a forma torna-se essência. Pois se trata, aqui, de traduzir um artista que não se pauta pelos cânones, ou que os (re)cria numa nova dimensão.

Contramão. A proposta de retratar Nelson Leirner partiu do Itaú Cultural, na sua série Iconoclássicos, na qual o artista se insere, perfeitamente. Como a diretora gosta de dizer, ela andou na contramão de O Aborto dos Outros. Não adotou uma sistematização. Fez o filme em aberto. Descobriu-o durante o processo - a realização e, principalmente, a montagem. Nelson Leirner é corintiano fanático, o que muita gerente não devia saber. Carla Gallo penetra - um pouco - na intimidade do artista. Descobre e expõe movimento de suas obras, fornece pistas, mas o objetivo está longe de ser didático. O cinema direto de O Aborto dos Outros é substituído por uma pesquisa formal mais intensa, um exercício de som, imagem - e arquivo. Justamente o som, ou melhor, a música. Nelson Leirner entra no próprio filme por meio de suas preferências.

Cantos da torcida corintiana, sinfonias de Beethoven, a trilha de Irving Berlin para o velho Puttin" On the Ritz, o balé A Criação do Mundo, de Darius Milhaud. Tudo isso vai se articulando e iluminando em Assim É, Se lhe Parece. Por meio dessa articulação revela-se o espírito do artista, e de sua obra. Esse jogo sonoro é uma contribuição de Lina Chamie, a talentosa diretora de Tônica Dominante e A Via Láctea. Lina é muito ligada à música. Sua proposta para Carla não é no sentido de a música "levar" o filme. Puttin" On the Ritz entra mais como a ironia de uma citação. Mais de um crítico já informou que a obra de Leirner é toda ela um comentário sobre o sistema em que se inscreve (ou que a produz). Assim É termina dando conta também disso.

ASSIM É, SE LHE PARECE

Direção: Carla Gallo. Gênero: Documentário (Brasil/ 2011). Censura: 12 anos. Estreia amanhã

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