A terra devastada da cultura atual

Em 'A Civilização do Espetáculo', Vargas Llosa critica a superficialidade das artes e do pensamento contemporâneo

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h19

Em A Civilização do Espetáculo - Uma Radiografia do Nosso Tempo e da Nossa Cultura, Mario Vargas Llosa expressa preocupação justificada. Quando um tubarão conservado em formol (conforme a obra de Damian Hirst) nos é apresentado como obra de arte, algo anda mal na chamada "cultura".

O livro trata não apenas da degeneração das formas artísticas, mas de algo ainda mais geral - o advento de uma sociedade voltada para o entretenimento puro e simples. Essa aspiração ao leve, ao superficial, ao divertido, contaminaria não apenas as artes plásticas, mas o cinema, a literatura, e outros domínios da expressão humana, como o próprio jornalismo, com a ânsia atual de transformar a notícia num produto "vendável", isto é, divertido.

Em seis capítulos e mais uma Reflexão Final, Llosa ataca esse modo de ser contemporâneo em várias frentes. A palavra "decadência" aparece de maneira explícita ou implícita. Dá tom e calor ao texto, magnificamente claro e bem escrito. Não por acaso, o primeiro autor lembrado é T. S. Eliot, em especial seu ensaio, publicado em 1948, Notas para Uma Definição de Cultura. Nele, Eliot afirma: "Não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura". Llosa adianta-se ao próprio raciocínio e afirma, sem pestanejar, que "esse tempo é o nosso". Autor de The Waste Land, Eliot acreditava que a cultura seria patrimônio de uma elite: "É condição essencial para a preservação da qualidade da cultura de minoria que ela continue sendo uma cultura minoritária", escreve.

Essa ideia de "elite" impregna o texto do próprio Llosa. Como se a cultura, ao transpor a morada espiritual dos bem pensantes, tivesse se aviltado, simplificado, decaído. A ideia altruísta de que a cultura não podia continuar privilégio de poucos, degenerou, segundo Llosa, na massificação da cultura e, portanto, na sua neutralização. A tese, muitas vezes repetida ao longo do ensaio, é de que a cultura de verdade, a alta cultura, teria por fim levar o público a uma imersão mais completa, e complexa, na própria experiência da vida, com seus desafios, incertezas, ambiguidades. A "cultura" de entretenimento, pelo contrário, busca apaziguar, fornecer um efêmero momento de evasão, ser bálsamo provisório para as agruras da existência. Para tanto, a "obra" atual deve ser convencional no conteúdo e redundante na forma.

Não basta constatar essa decadência, é preciso fazer um diagnóstico do fenômeno. O que o causou? Quais os responsáveis? Llosa relaciona uma série de desafetos, entre os quais Mikhail Bakhtin, passando por Lacan, Foucault, Derrida, Baudrillard. Bakhtin, por exemplo, comete o pecado, na visão de Llosa, de escrever um livro como Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, no qual dá destaque à cultura popular, menos refinada, porém mais livre e criativa que a pretensiosa e artificial cultura oficial.

A Baudrillard reprova a transformação do mundo em simulacro, sobre o qual não teríamos interferência real. E a Foucault, que censura por "acreditar que seria mais factível encontrar a emancipação moral e política apedrejando policiais, frequentando as saunas gays de São Francisco ou os clubes sadomasoquistas de Paris do que nas salas de aula ou nas urnas eleitorais", ainda responsabilizava por colocar em xeque a noção de "verdade".

Não por acaso, Llosa faz questão de distinguir-se do pensador francês Guy Debord que, nos anos 1960, escreveu uma obra de título bem parecido ao seu, A Sociedade do Espetáculo. A descrição do fenômeno da banalização cultural é parecida - Debord fala da "futilização" que domina a sociedade moderna -, mas o diagnóstico é muito diferente. Llosa é um liberal democrata para quem o capitalismo é realidade inescapável e sem alternativa. Debord achava que a crítica à sociedade do espetáculo apenas valeria como parte da crítica prática (isto é, revolucionária) ao sistema que a torna possível.

Embora prudentemente crítico em relação aos desvios do capitalismo, Vargas Llosa preserva a essência do sistema. Parece saber muito bem que a banalização cultural é apenas parte do processo contemporâneo de expansão do capital através da proliferação das mídias digitais, em suas diversas plataformas. Como não ataca o sistema, em sua base, conclui em tom pessimista, definindo-se como "dinossauro em tempos difíceis".

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