A terceira idade do cientista

Em 1986, aos 78 anos, Claude Lévi-Strauss proferiu três conferências no Japão, reunidas agora em livro sob o título de L"Anthropologie Face aux Problèmes du Monde Moderne (Seuil, 2011). Mais que uma série de reflexões cautelosas a favor do "humanismo democrático", a traduzir tanto a emergência no século 20 das nações humildes e desprezadas quanto o término da supremacia cultural do Ocidente e o decorrente relativismo cultural e moral, as conferências estampam o testamento intelectual e ético de mente excepcional. Por ter enriquecido o conhecimento nas ciências humanas por mais de meio século, Lévi-Strauss ganhou o direito de manejar a linguagem expositiva e a persuasão no alto da própria sabedoria. Ao auferir os dividendos, a aventura do saber antropológico resplandece.

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2011 | 00h00

Quando alicerçado na memória individual e na idade avançada, o conhecimento científico deixa de ser generoso e comunitário para se encaramujar em introspecção. As reflexões teóricas e os exemplos tomados desse ou daquele escrito do autor extrapolam o marco original da evidência científica e se transformam, aos ouvidos do leigo a que o palestrante se dirige, em dados irrepreensíveis e modelares. A exemplaridade do saber amealhado pelo antropólogo é o espelho onde se mira o conferencista para apresentar, polemizar e transmitir o tema sugerido pela Fundação Ishizaka. O tema proposto reporta-se à obra consagrada e ambos dialogam em fala que opta pelo modo absoluto. A imagem duma bela vida de estudos, de docência e de publicações talvez seja a principal dádiva oferecida.

Nesse sentido, não conheço introdução mais fiel e rigorosa (e certamente menos crítica) ao grosso da produção e do pensamento lévi-straussiano. Espremida a obra e condensada em casca de noz, sobressai uma das técnicas mais felizes da argumentação antropológica de Lévi-Strauss, a refletir as pesquisas e as viagens do cientista pelo tempo e o espaço. Trata-se das "relações de simetria", inspiradas talvez pela teoria dos conjuntos em matemática, desenvolvida pelo grupo francês Bourbaki. Pelo exercício delas situações aparentemente distantes no tempo e no espaço e aparentemente diferentes na longuíssima história da humanidade são aproximadas e se encaixam pela semelhança semântica e lógica, estabelecendo novas categorias mentais. Ordena-se a multidão de variantes para que a propriedade invariante venha à luz. A lição oferecida pelas civilizações que desconhecem a escrita e os meios mecânicos "ilustra, pois, um denominador comum da condição humana".

Daí que grande parte do esforço metodológico de Lévi-Strauss seja o de desmascarar os jogos de aparência impostos pela disposição geográfica dos povos no planeta e pela história evolutiva e linear do progresso da humanidade. Em Tristes Trópicos, ele se vale da atitude teórica de Freud frente ao inconsciente e de Marx frente à ideologia para afirmar que "a realidade verdadeira nunca é a mais patente (la plus manifeste) e que a natureza do verdadeiro já transparece no zelo que este emprega em se ocultar". Ao sobrepor o racional ao sensível, conclui: "Sinto-me banhado numa inteligibilidade mais densa, em cujo seio os séculos e os lugares se respondem e falam linguagens afinal reconciliadas". As relações de simetria aliam a linguagem do antropólogo à do geólogo, conferindo-lhes a altitude da visão de poeta e de alquimista. Associados, almejam o saber expresso no soneto Correspondências, de Charles Baudelaire, por sua vez inspirado no misticismo platônico do sueco Swedenborg.

Decorre que, para se reconhecer, uma sociedade precisa dispor de uma ou de outras que lhe sirvam de termo de comparação. A identidade nacional é produto de uma "técnica do dépaysement": o observador compreende melhor o objeto que lhe é próximo se o visualizar da perspectiva do outro. Como no teatro japonês, o ator julgará melhor seu desempenho dramático se o fizer da poltrona na plateia. Esse é o caminho que deve conduzir os membros das nações ricas e poderosas em direção a certa humildade que se confundirá com a sabedoria antropológica. Lembra Lévi-Strauss: Jean-Jacques Rousseau preferia crer que eram homens os gorilas vistos e descritos pelos viajantes europeus. O filósofo não corria o risco de negar a qualidade de homens a seres que talvez revelassem um aspecto ainda desconhecido da natureza humana.

Ao se apoiar no olhar crítico e distanciado, a reviravolta sugerida por Rousseau aconselha as nações desenvolvidas a se enxergarem no processo globalizado de industrialização a que submetem tardiamente os países subdesenvolvidos. No espelho da ex-colônia, vê-se a imagem da metrópole corrompida pela ambição desmedida dos homens e deformada pela pressa. A imagem grotesca explicita as destruições que foram necessárias para que as nações imperiais atingissem o estágio de progresso a (não) ser imitado. Para que repetir estragos? Na resistência ao progresso pelo caminho único da industrialização, Lévi-Strauss observa três tendências entre os povos desprovidos de escrita: o desejo de unidade sobrepuja a realidade dos conflitos internos, o respeito às forças naturais domina e, finalmente, aflora a repugnância ao encaixe artificial num devir histórico.

Ao reconhecer a diversidade das culturas, o evolucionismo apenas finge. Se os diferentes estágios das sociedades humanas - tanto os das antigas no tempo quanto os das distantes no espaço - são tratados como etapas de um desenvolvimento único a empurrar a humanidade para a mesma direção, a diversidade é só aparente. O progresso não é contínuo nem necessário. Procede por saltos. Por mutações, como dizem os biólogos. No xadrez, o cavalo, bloqueador de peões adversários, se move na liberdade que lhe oferecem as orientações em L.

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