"A Teoria do Romance" ganha primeira tradução no Brasil

Georg Lukács escreveu um dos livros fundamentais para quem estuda literatura ou sociologia: A Teoria do Romance, publicado em 1920. É um texto difícil, muitas vezes obscuro, talvez por trazer inerentes os ecos de seu tempo, já que foi escrito durante a 1.ª Guerra Mundial. Mas não há tempo para ele, já que acaba de ganhar sua primeira tradução no Brasil. O Estadao.com.br publica com exclusividade O idealismo abstrato, primeiro capítulo da segunda parte da obra que deverá chegar às livrarias até o fim do mês. Sai pela editora 34, como o primeiro livro de autor estrangeiro da Coleção Espírito Crítico, dirigida por Augusto Massi, que além de ser um editor minucioso é professor de literatura brasileira na USP. E vem ainda avalizado por um conselho editorial formado por nomes como: Alfredo Bosi, Antonio Candido, Davi Arrigucci Jr., Flora Süssekind, Gilda de Mello e Souza e Roberto Schwarz.É um livro que certamente figura na biblioteca dessas "autoridades" e que, segundo Massi, foi citado por Walter Benjamin, por exemplo, no célebre ensaio O Narrador, "o que prova que foi lido por pensadores importantes". Lukács também era desse time. Ele nasceu em 13 de abril de 1885 em Budapeste, na Hungria. Era um intelectual de esquerda que aos 27 anos freqüentava a casa de Max Weber, em Heidelberg, na qual se reunia a nata da intelectualidade alemã da época. Nesse contexto ele começou a escrever A Teoria do Romance. A nova tradução é uma ótima notícia para os estudantes de literatura, porque este sempre foi um entrave para a leitura da obra. Em português, circula nas bibliotecas acadêmicas e nos sebos uma edição portuguesa sem data, publicada pela Editorial Presença, "feita do francês e não do original alemão, com erros, e era o que todo mundo lia", diz Massi. Além disso, para o leitor, enfrentar o jeito diferente do português de Portugal pode ser tão complicado quanto ler em inglês, francês ou alemão. Segundo Massi, a nova tradução além de ter sido feita por um estudioso de Lukács, foi confrontada por mais dois especialistas em alemão. A edição conta ainda com uma bibliografia completa do autor e um posfácio que é uma versão da dissertação de mestrado do tradutor, José Marcos Mariani de Macedo, sobre A Teoria do Romance. Trata-se de um elemento esclarecedor para a leitura deste texto que discute a literatura mas tem a política como ponto de fuga. Macedo aponta o conceito de forma como a argamassa com a qual Lukács edifica sua crítica literária. E recolhe de sua obra essa explicação: "Sem forma não há fenômeno literário"; talvez haja ciência, mas não literatura. Eis aí a cisão mais básica: "na ciência agem sobre nós os conteúdos, na arte as formas; a ciência nos oferece fatos e as suas correlações; a arte, porém, almas e destinos."Mais adiante, ele diz que "os leitores costumam mover-se apenas pela experiência do conteúdo que age sobre eles, enquanto os escritores tratam de solucionar problemas técnicos de expressão. Para além de ambos, experiência e técnica, a forma é esse ponto cego que empresta fibra aos elementos dispersos e os coordena numa totalidade, sem a qual não há concepção nem fruição literárias". Biografia - A cultura e a política deixaram marcas na vida de Lukács. Primeiro, ele estudou ciências jurídicas, na Universidade de Budapeste e foi um dos fundadores do Teatro Thalia, que encenava peças de Ibsen, Gorki e Strindberg, renovando a cena cultural em Budapeste. Depois, doutorou-se em Filosofia, em Berlim. Lá, foi discípulo de Georg Simmel e amigo de Ernst Bloch. No período de 1912 a 1916 viajou entre Berlim, França, Itália e Heidelberg.Em 1918, chegou a entrar para o Partido Comunista e foi um militante de vida atribulada. Ocupou cargos públicos na Hungria, viveu em Viena, Berlim, Moscou. Quando a União Soviética invadiu a Hungria ele foi deportado para a Romênia. Entre idas e vindas foi expulso do partido, voltou a integrá-lo, retornou ao seu país natal em 1967 e morreu em 1971.A Teoria do Romance, de Georg Lukács. Tradução, posfácio e notas de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo, Editora 34, 240 págs., R$ 27.

Agencia Estado,

16 de setembro de 2000 | 05h44

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