A tentativa de não destoar da média leva à banalidade

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2012 | 03h09

JJJJ ÓTIMO

JJ REGULAR

A estrutura de 12 Horas é a de um suspense convencional. Na história, Jill (Amanda Seyfried) é a garota que foi sequestrada uma vez, conseguiu escapar do cativeiro e, quando a irmã some de casa, teme que ela tenha sido levada pelo mesmo criminoso. Decide ir sozinha atrás do maníaco que, suspeita, tenha matado outras moças e as enterrado num parque de Portland, onde tudo se passa.

Para a coisa funcionar, há que se introduzir o dado clássico nesse gênero do filme: a polícia não acredita na história e nem nas suspeitas de Jill que, portanto, precisa agir sozinha, arriscar-se e comportar-se como aquele agente autônomo que busca resolver o problema com as próprias mãos. Caso contrário, se toda a comunidade, a começar pelos agentes da lei a ajudassem, nada teria muito sentido. E nenhuma graça. Para que funcione, Jill deve estar só. E ela não passa de uma mocinha.

O curioso é que aparecem, timidamente, alguns elementos que, caso mais bem explorados, poderiam talvez dar espessura à trama. Por exemplo, a palavra de Jill não é levada muito a sério porque ela esteve internada no passado em uma clínica, justamente por causa do trauma causado pelo sequestro. Também a irmã, Molly (Emily Whickersham), pode não ser muito confiável, uma vez que tem problemas com o álcool. Teria sido levada por um criminoso ou estaria apenas curtindo um porre mais prolongado?

Acontece que o projeto é careta demais para conter protagonistas disfuncionais para valer, como acontece em Millenium (tanto na versão sueca como na americana) em que a heroína é um poço de desequilíbrios. Pena, porque esse trabalho com a estranheza teria tudo a ver com o universo de Heitor Dhalia - basta lembrar de filmes como Nina e O Cheiro do Ralo. Mas, nessa produção norte-americana, ele é levado a uma normalização que acaba por esterilizar o projeto e desse modo as esquisitices das irmãs passam batido.

Benfeito 12 Horas é, sem dúvida. Exibe boas cenas noturnas e, tirando algumas obviedades como as inevitáveis perseguições de carros, traz sequências interessantes. Uma, em especial, poderia ser bem melhor do que é, quando Jill parte para o centro do seu pesadelo. Mas a mocinha não tem lá a densidade necessária para expressar a terrível experiência que significa domar o próprio pavor. Também aqui a coisa se dilui. O espectador mais atento nota que o realizador tenta ainda colocar alguma coisa de original na mesmice, mas acaba cedendo a forças superiores às suas.

Por isso, o filme, embora digno, pareça tão travado. É o tipo de cinema que finge às vezes ser ousado, mas aspira, no fundo, a apenas não destoar da média. Acaba sendo apenas banal.

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