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Leandro Karnal
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A tentação do sentido

Temos percebido ou inventado sentidos há muito tempo. Parece que o sentido nos acalma

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2021 | 03h00

As coisas possuem um sentido ou ocorrem de forma aleatória? O universo tem alguma lógica? O ritmo dos fatos seria imaginado por uma ordem superior (religiosa, filosófica ou científica) ou estamos imersos no absurdo? Qual o sentido da pandemia de coronavírus? Por que alguém morre jovem? Qual o sentido da vida?

As respostas, se existem, são complexas. A palavra grega para sentido (ennóia) não se confunde, como em português, com a percepção das coisas (sentido da visão ou olfato, por exemplo). Estamos falando de significado dos fatos, das coisas e das pessoas. Temos uma constante busca de sentido, quase uma tentação. “Isso aconteceu para que eu aprendesse uma lição”; “escapei do acidente porque não era minha hora”; “ter filhos deu sentido a minha vida”. Quase sempre a ideia é confundida com um lugar (telos, em grego) e uma jornada para tal lugar. Também aparece como uma pessoa (filho) ou uma causa (a educação) e aqui se confunde com afeto intenso. Por gostar muito do meu filho ou da minha profissão, suponho que seja o sentido quando é preenchimento do tempo com prazer. Não é disso que estamos falando. A vida pode ter sentido com dor ou sem. 

As religiões são fruto da tentação máxima de sentido. Quero ser parte de um drama cósmico que me considera importante. Por exemplo: Anjos e demônios, Deus e o diabo disputam minha alma. Eu fui criado no momento máximo do sexto dia. Tudo o que ocorre foi pensado para meu bem, inclusive coisas difíceis. Sou ator de uma peça escrita pelo Ser Supremo e cabe a mim fazer as falas, ações e marcações de cena corretas para ganhar a salvação. A ideia pode ser de um Deus pessoal ou diluído em questões mais técnicas como a dita lei do retorno: sua ação gera uma reação, o que você dá você recebe, tudo o que vai acaba voltando. O binômio causa-efeito pode ser de fonte religiosa ou concebido como uma espécie de ciência universal. Se você não entendeu, não se preocupe, basta usar a palavra “quântico” que tudo se resolve de uns anos para cá. 



Dadas por um Deus ou determinadas por uma ciência difusa, as ideias descritas antes tentam fazer um sentido (moral, inclusive) para nossa existência. As religiões, quase sempre, criam uma ideia de início, meio e fim e me colocam dentro deste processo. Tudo é conhecido e possui lógica. Em Lucas 12,7, por exemplo, sabemos que os fios do cabelo da nossa cabeça estão contados e, no mesmo evangelista, somos informados que nenhum deles cairá sem que Deus permita (21,18). 

A tentação de sentido atinge ateus, inclusive. Marx criou, em 1848, um Manifesto que fala de toda a história humana (que foi calcada em luta de classes). Mais tarde, desenvolve a ideia de que marchamos, inevitavelmente, para uma revolução que introduzirá o socialismo e, logo em seguida, o comunismo. O autor eliminou Deus, introduziu um materialismo forte, e criou uma teleologia: um sentido de história. Como dizia o crítico Edmund Wilson (Rumo à Estação Finlândia), a solidez do castelo marxista não impediu que as brumas da metafísica entrassem sob a porta. A metafísica, no caso, é uma leitura de transcendência, de algo além da física, de abstrações entre poesia e tom profético. 

Já declarei em público como vejo semelhanças entre religiosos em geral e marxistas. Ambos possuem livro sagrado, ideia de fraternidade, dogmas, ambos gostam da ideia de martírio, podem ser violentos ao exercer o poder, amam tribunais, são capazes de sacrifícios e, no extremo, até de coisas bonitas. No fundo, são sistemas que decorrem da ânsia absoluta pela vontade de sentido. Espelham, ambos, um desejo ancestral que explica sua longevidade que não depende de fracassos do passado. Sempre tive bons diálogos com marxistas e com devotos religiosos e sempre temi a ambos no poder, seja em teocracias ou em ditaduras do proletariado. Seus títeres, escolhidos por Deus ou pela revolução (czares ou Stalins), são complicados. 

E se não houver uma alma a salvar, um reino de Deus a instaurar ou um povo a libertar da opressão capitalista? Se as causas forem artificiais e datadas pelo meu tédio, ressentimento, revolta ou desejo denegado? E se o sentido fosse uma construção mental ou social para evitar o desespero e o vazio? Consegue imaginar? Abrir mão de tais ideias parece abrir em nós uma certa angústia. 

Temos percebido ou inventado sentidos há muito tempo. Parece que o sentido nos acalma. Mais: gostamos de sentidos justos. Queremos que os bons recebam alguma recompensa e os maus sejam punidos de algum jeito, neste ou em outro mundo. Com Céu/Inferno, ciclo de reencarnações, revoluções socialistas ou liberais, ideia de carma/darma, lei do retorno e tantas outras elaborações, aquieta-se nossa consciência e o mundo entra em um eixo. Há um destino, caminhamos para ele, inexoravelmente. Ufa! O alívio revela nossa carência. Quem estaria enganado: o que reforça ou o que esvazia a fixação em sentido? Esta pergunta tem sentido? Independentemente da resposta, é preciso buscá-la com esperança. 


É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

 

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