A tensão política da arte

No MAC, Entre Atos 1964/68 se fixa na fase inicial do regime militar no País

Maria Hirszman / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2010 | 00h00

 Fundado em 1963, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) teve desde o início uma dupla missão: preservar seu célebre e valioso acervo de arte moderna e servir de campo de ação e estímulo à produção contemporânea brasileira. Esse caráter inovador, estimulado por Walter Zanini, seu primeiro diretor, acaba por adquirir um forte viés político, por uma razão muito simples: o golpe de Estado dado pelos militares dias antes de a instituição completar um ano.

O clima no País torna-se opressivo e as ações implementadas pelo MAC - entre as quais se destaca uma série de projetos de incentivo aos novos artistas, como as exposições Jovem Desenho Nacional, Jovem Gravura Nacional e Jovem Arte Contemporânea - acabam não apenas desempenhando um importante papel na formação de toda uma geração, mas também ajudando a cunhar parcialmente a vocação do museu, dotando-lhe também de um dos mais importantes acervos de arte brasileira da segunda metade do século 20.

Parte dessa história pode ser vista na exposição Entre Atos 1964/68, em cartaz até 1.º de agosto na sede do MAC, na Cidade Universitária da USP. Como revela o título ao mesmo tempo preciso e poético, a mostra contempla apenas o período inicial do regime militar, mais precisamente aquele entre os anos 1964 e 1968 ou os Atos Institucionais 1 e 5. Com uma tríplice curadoria, assinada por Ana Magalhães, Cristina Freire e Helouise Costa, este é apenas o primeiro evento de um projeto de fôlego, que se estenderá até 2011.

No segundo semestre, coincidindo com a 29.ª Bienal de São Paulo, será a vez de olhar para a produção dos anos 1969 a 1975 - intervalo marcado por um forte ímpeto de resistência - e no ano que vem será a vez do período que se segue até 1985, cuja tônica principal é a internacionalização radical por que passa a arte brasileira após os meados da década de 70.

Estudar o gigantesco acervo do MAC, tendo em vista esse contexto temporal e político, levou à elaboração de um painel bastante rico sobre a produção dos anos 60 no País, reunindo mais de 100 trabalhos de 49 artistas diferentes. Há na exposição obras centrais para a compreensão da arte do período. É o caso, por exemplo, de Beijo, objeto cinético que simula e ao mesmo tempo estilhaça o movimento da boca, de autoria de Waldemar Cordeiro (1925- 1973). Autores hoje consagrados no País, como Nelson Leirner - exemplo raro de artista representado nos três núcleos da mostra -, convivem com obras de criadores que tomaram outros rumos, como a pintora Cybèle Varela, que ainda em 1968 muda-se para a França.

"Mais do que buscarmos marcas explícitas de engajamento político nas obras, cabe-nos saber ler nas entrelinhas os indícios que trazem das relações de poder que se estabeleceram dentro e fora do circuito de arte", afirmam as curadoras em texto de apresentação. Na tentativa de escapar aos moldes tradicionais da história da arte, as pesquisadoras organizaram a mostra em função de três termos genéricos, porém centrais para se entender os rumos da arte no período: a figura, o gesto e o plano.

Potência. No primeiro grupo se encontram os trabalhos mais marcadamente figurativos e próximos à linguagem da arte pop ou da nova figuração. Coincidentemente, se encontram aí as obras mais explicitamente engajadas, como a irônica Aliança para o Progresso, de Marcelo Nitsche, Proibido Virar à Esquerda, de Rubens Gerchman, ou Exercício de Integração, de João Suzuki.

Uma segunda sala reúne as peças de cunho mais abstrato, porém com grande potência expressiva. Em vez da imagem, cores e gestos traduzem a tensão do período. No bloco final estão os trabalhos mais projetuais, cerebrinos, em que se nota, nas palavras de Ana Magalhães, "a sobrevivência de uma poética construtiva". Por toda a exposição ainda se encontram vitrines com ampla documentação.

Parece ter predominado entre as curadoras o desejo - bem-sucedido - de tornar mais palpável o projeto de Zanini de pensar o museu como "laboratório de experimentação" e a opção por reafirmar a identidade universitária do museu e sua vocação natural de estimular a reflexão sobre a arte, a história e a sociedade brasileira.

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