"A Tempestade" deixa o XPTO a ver navios

O século 20 se empenhou em desacreditar a tese de que as peças de Shakespeare formavam um sagrado monumento literário ao qual o espetáculo deveria se submeter docilmente. Suas peças foram encenadas com o auxílio das mais variadas teorias e técnicas do palco moderno empregadas para dar relevo ao movimento da cena, à visualidade e a atuações calcadas sobre o ritmo, a sonoridade e a dramaticidade.Resistiram bem no palco a adaptações, cortes, atualizações do vernáculo e da sintaxe e sustentaram bravamente perspectivas ideológicas e teóricas inconcebíveis no tempo em que foram escritas. Foram muitas vezes veículo de interpretações pessoais, ardentes, comprometidos com dilemas contemporâneos dos artistas que as encenaram. Basta lembrar que, nos anos 70 do século passado, encenações memoráveis de A Tempestade, impregnadas do espírito da contracultura, humanizavam Caliban, atribuindo-lhe os direitos de posse sobre a ilha que o "colonizador" Próspero invadira e subjugava com ânimo cruel e os instrumentos de uma tecnologia superior.O inventário dessas aproximações serve menos à compreensão das peças do que a da época e do meio em que foram concebidos os espetáculos. A fé que o século 19 depositou na sabedoria e na "visão espiritual" de Próspero (as palavras são de Coleridge) sucumbiu diante das avaliações críticas do imperialismo e, por um processo de transferência, migrou para a resistência do seu escravo nativo. A cada dobra do tempo, em resumo, outros sentidos transparecem e se impõem.Pois vamos torcer para que não seja próprio desse tempo e lugar aproximar-se de A Tempestade pelo viés restrito das possibilidades visuais. É a opção adotada pelo grupo XPTO, dirigido por Osvaldo Gabrieli. Em uma tradução de Marcelo Rubens Paiva e Rosana Seligmann expurgada de qualquer pretensão poética e devidamente enxertada por coloquialismos, o espetáculo se divorcia alegremente de qualquer ambição literária.Diante de dificuldades nesse terreno, como no caso da tradução das canções, recorre-se sem pudor a rimas pobres. O que interessa mesmo, ao que parece, é a cor, o movimento, o contorno livre a que o teatro tem direito quando lida com o fantástico ou o maravilhoso.Pois é exatamente nesse terreno, tão familiar ao XPTO, que o espetáculo - perdoem o óbvio - naufraga. Sem limite, desprendendo-se da trama e das palavras, as figuras imaginadas pelo grupo se movimentam com gestos estereotipados e figurinos exagerados para contar uma história que parece incompreensível para os próprios intérpretes.Manipulação - Ariel torna-se uma espécie de bichinho saltitante, ocupadíssimo, mas inteiramente desprovido daquela ânsia de liberdade com que foi dotado pelo seu criador. Com a mesma medida rasa, Caliban rasteja, grunhe e se atrapalha sob um manto cuja manipulação consome boa parte da energia do intérprete. Uma vez que não compreendemos bem os motivos da querela com Próspero, somos tentados a supor que a revolta se baseia em um mau humor congênito.É também pelo lado exterior, da caracterização visual, que se resolvem todas as outras figuras da trama. Nobres, marinheiros e a própria Miranda, única presença feminina da peça, envergam figurinos em que há traços de irrisão, de pretensão do cômico que, pela concepção de Gabrieli, deve prevalecer sobre o poético. A pompa e a vaidade serviriam bem aos nobres náufragos se as interpretações correspondessem à ironia das vestimentas. Não é o caso.Mas não há nenhuma justificativa no texto (e o espetáculo não oferece alternativas) para tornar aceitável a pitada de grotesco aplicada sobre a personagem de Miranda.Caberia ao intérprete de Próspero, protagonista e regente da fortuna de todos os personagens, exercer sua autoridade sobre a cena. No entanto, em uma concepção que só atribui valor à imagem e à movimentação física, não há espaço para a atividade verbal do mentor do jogo.Resignadamente, amparado pelo uso de microfone, Sérgio Mamberti contempla com afeição paternal o universo criado pelo seu personagem. Funciona como uma espécie de locutor narrando acontecimentos confusos, distanciado de qualquer emoção e igualmente desinteressado da possibilidade reflexiva do seu personagem.Salvam-se os desempenhos, inspirados na tradição circense, de Tay Lopes e Cadu de Souza. Não fazem nada de novo, mas, pelo menos, usam alguma coisa além do figurino para representar a graça dos marinheiros bêbados. Estão um pouco além da proposta de oferecer uma versão facilitada, resumida e ilustrada de uma peça de Shakespeare.A Tempestade. De Shakespeare. Direção Osvaldo Gabrieli. Duração: 105 minutos. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 20,00 (quinta); R$ 25,00 (sexta) e R$ 30,00 (sábado e domingo). Teatro Sérgio Cardoso. Rua Rui Barbosa, 153, tel. 288-0136. Até 22/12.

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