A Tartaruga e a Metralhadora Automática

Se você já parou para observar a indignidade de uma revista de aeroporto, como, por exemplo, a mãe que vê a mamadeira do seu bebê ser confiscada ou o idoso, que mal se aguenta em pé, tendo a bengala desmontada, pode ter ponderado: este é o custo da segurança. Mas se você foi a uma sessão de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge no cinema de Times Square, na sexta-feira à noite, faria outra ponderação. A presença ostensiva de policiais armados e discreta de sabe-se lá quantos à paisana não garantia proteção contra o que o comandante da polícia de Nova York admitiu temer: o crime copycat, cometido por alguém tentando uma vaga sob o holofote da infâmia do atirador de Aurora.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h09

A via crucis em que se transformou a vida do passageiro aéreo é um produto do terrorismo, ainda que não possa ser explicada apenas por ele. Já o risco que corremos na plateia do cinema, na sala de aula de Virginia Tech e Columbine, ou no bar do Alabama, onde outro dia um homem entrou atirando e acertou em 17 pessoas, é filho legítimo de uma convicção americana: a liberdade individual só sobrevive numa democracia se você puder comprar uma arma automática com o poder de disparar 600 tiros por minuto.

Logo depois do massacre de Aurora, uma deputada do Partido Republicano pelo Estado do - adivinhem? - Texas, declarou que a tragédia foi causada "pelos ataques às crenças judaico-cristãs" e concluiu o pronunciamento com a pérola: com tanta gente dentro do cinema, porque não havia alguém armado para reagir contra o atirador? Voltemos ao Velho Oeste, ela parece recomendar.

No ano passado, uma pesquisa do Instituto Gallup revelou que os registros de porte de arma dispararam nos Estados Unidos durante o governo Obama. Comerciantes que mal dão conta das encomendas de munição acreditam que a demanda se deve à certeza de que o presidente vai tentar passar leis de controle de porte de armas. Barack Obama nunca demonstrou a menor disposição de assumir o risco eleitoral de mexer no vespeiro do porte de arma. Deixo ao leitor a conclusão sobre a diferença entre a percepção e a realidade.

A trilogia do Batman, dirigida por Christopher Nolan, termina, mas a sequência do reality show de horror dos assassinatos em massa com armas de fogo tem reprise garantida, graças à interpretação obscena da Segunda Emenda da Constituição americana: "Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser impedido."

A emenda, redigida por James Madison, em 1789, tinha o objetivo de acalmar o temor dos anti-federalistas contra o abuso de poder do governo federal do pais recém- fundado. O texto original dizia: "O direito do povo de portar armas não deve ser violado; uma milícia bem armada e bem regulada é a melhor segurança de um país livre."

Não passou pela cabeça dos fundadores dos Estados Unidos que eles estavam defendendo o porte de arma privado ou os direitos dos caçadores.

O assassino de Aurora não precisava de escopeta e centenas de rodadas de munição para acertar numa rolinha e morava num complexo residencial universitário onde a manutenção da segurança não lhe compete. Ainda assim, comprou armas, explosivos e armadura militar no exercício escatológico de liberdade que é celebrado pela deputada texana mentecapta. Se eu pisar numa calçada nova-iorquina com o copo de vinho que acabei de pedir num bar, posso ser convocada para me explicar diante de um juiz.

O inesgotável arsenal do lobby das armas para acertar políticos e a falta de coragem do Partido Democrata para enfrentar a carnificina não serão abalados pelo que aconteceu na sessão do Batman.

Até o próximo massacre.

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