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A tarde em que tudo apagou

A segunda-feira, 4 de outubro de 2021, ficará na história como um novo 11 de Setembro?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 03h00

Para Laine Milan

 

Aí, um poder superior (qual?) disse: Haja apagão. E houve. E todos viram que o apagão era ruim. E o poder superior (qual?) dividiu o apagão entre WhatsApp e Facebook. E houve choro, convulsões e desespero. Todos perplexos, atemorizados, sacudiam seus aparelhos inertes. Sempre achamos que uma sacudidela resolve. Teria tudo acabado naquela segunda-feira? Morreu o WhatsApp? Como viver? Suportar? A própria pandemia pareceu uma gripezinha, como dizia o destemperado. As pessoas, estupefatas, murmuravam: isso é impossível. Tão absurdo como acabar com o desmatamento no Amazonas ou o ministro da Educação conseguir somar dois mais dois. 

As pessoas sacudiam os celulares, batiam na mesa. Bater é outra esperança. Ligavam e desligavam. Olhavam com carinho, como se aos aparelhos faltasse amor. Ou contemplavam com ódio – porque o ódio explode fácil dentro de cada um – como se o aparelho fosse o culpado, estivesse se vingando de ser condutor de tantas palavras fúteis, mensagens, memes, msm, tuítes, idiotias, rancores, desamores. Ligavam, desligavam. É sempre uma esperança. Andavam para lá e para cá, crendo que era um problema de internet e procuravam um cantinho onde pudessem conectar. Não estar conectado, ai meu Deus, que horror, solidão! Andavam sem rumo buscando onde estava o sinal. Todos conhecemos esta investigação cheia de ansiedade. O sinal, o sinal…

A segunda-feira, 4 de outubro de 2021, ficará na história como um novo 11 de Setembro? Como a bomba sobre Hiroshima? Como a separação do Brad Pitt e da Angelina Jolie? Como um grupo de cafonas comendo pizza numa calçada? Como a Paolla Oliveira mostrando a calcinha em uma live? 

O sinal, cadê o sinal? Não pegava em lugar nenhum. Alguns pediam o celular da mulher (que negava), do marido (que negava, apavorado), da filha, do genro, do neto, da ex-mulher, do ex-marido, do guarda da esquina. Nada. Ainda existem guardas da esquina ou denunciei minha idade? Minha neta Stella me diz: agora é vigilante, vô! Não há mais netos sem celular. Não há netos que não orientem os avós, eu inclusive. Todos se indagavam: o que fazer? O que vai ser de mim? O que vai ser de ti? O que vai ser do meu trabalho? De minha família? De minhas relações? A quem invocar? A quem telefonar? Quem sabe o que está acontecendo? Como saber? Porque quem costuma nos dizer o que acontece é exatamente o celular. Não adianta perguntar: Google, me diga... Nem Siri, me diga... Uns foram ao vizinho e o vizinho não sabia. Desceram à rua e foram à padaria, ao supermercado, à praça, às lojas. Todos tinham nas mãos seus aparelhos inúteis. As marcas mais procuradas, sabe-se lá de quantos milhares de megabits – ou o que seja – indiferentes. 

O desespero começou a se espalhar. O grande comunicador estava calado, ninguém ligava ninguém recebia. Sensação de impotência crescendo. O pânico invadindo cada casa, escritório, departamento, repartição, empresa, igreja, bar, motel, armazém, banco, farmácia, consultório, banheiro, privada. As pessoas emudeceram também, porque não sabem mais conversar frente a frente, a comunicação só se faz pelo aparelho. Peste? Praga? Castigo de Deus? Houve quem dissesse: Deus não existe. Caíram de pau em cima. Como não?, vociferavam. Não sabem que a pátria está acima de tudo e Deus acima da pátria? Não. Nada disso. É um problema mecânico, celular é um ser muito novo, tem seus ataques, chiliques, momentos de mau humor, depressão, insatisfação. Ninguém se lembrou de algo que está relegado ao olvido. Demais esta, hein! Olvido. O fone fixo, o direto, aquele que hoje serve aos telemarketings. Quanto a mim, estive tranquilo. Não uso WhatsApp. Não sei. Aviso aos amigos. Não me mandem WhatsApp. Nem olho. Tem quem me diz: você não sabe o que está perdendo. Sei, todo mundo louco na segunda-feira, dia 4, menos eu, Calmo, calmíssimo. Já olhei por toda parte, todas as gavetas, armários, bolsos. Não falta nada. Mas li que nas contas de um sujeito chamado Zuckerberg estão faltando seis bilhões. Alguém ficou com pena, se chateou, ficou sem dormir? 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'

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