A tarde do pingue pongue

Um homem que se emociona com uma bolinha de plástico só poderia ser extraordinário

Diogo Pacheco, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Há muitos mitos com relação à personalidade de João Gilberto. Como convivi com ele durante dez dias em sua casa, em New Jersey, sempre que posso procuro desmistificar equívocos em que geralmente pessoas incorrem ao analisar sua personalidade. É sempre difícil entender um gênio. E mais difícil ainda é conviver com ele. Nunca me esqueci de quando sua filha Bebel Gilberto declarou no programa do Jô Soares: "Papai nunca cantou pra mim". Fiquei irritadíssimo, pois quando ela fez um ano, no dia de seu aniversário, eu presenciei João improvisando ao lado de seu berço o Parabéns a Você durante no mínimo duas horas. Foi uma obra-prima.

Falando em improvisar, me lembrei do João estudando na cama o Carinhoso. Ele fazia caretas estarrecedoras quando não achava os acordes que queria. Mas quando achava ficava feliz e as repetia dezenas de vezes. É impossível esquecer uma vez em que, durante um churrasco no quintal de sua casa, pisei inadvertidamente em uma formiga. Ele me chamou de assassino, colocou a formiga já morta embaixo de uma latinha e começou a cantarolar dizendo cada vez que levantava a latinha: "Ela está gostando". Os insensíveis devem ter vontade de caçoar; confesso que quase chorei.

Mas a melhor de todas foi quando ele me convidou para almoçar em Nova York. Eu queria ir de metrô. Ele preferiu o táxi. Chegando ao restaurante, disse estar com sede. Então falei para pedirmos uma água, e ele respondeu: "Não, coitado do garçom. Vai dar um trabalhão pra ele". É estranho mas é autêntico. Quando voltamos para casa, novamente de táxi, ele disse ao motorista: "Good afternoon", mas o motorista não respondeu, porque não entendeu ou porque não tinha mesmo educação. Fez-se silêncio no resto do percurso. Quando chegamos o João me convidou para jogarmos pingue-pongue. Começamos uma partida chatíssima, daquelas de comadre. Uma hora não aguentei mais e dei-lhe uma bola rente à rede que ele não alcançou. Aí ele parou e observou: "Você viu? Essa jogada tinha beleza. O jogo estava bá bá bá e de repente você fez bi bi. Se o motorista visse essa jogada ele me responderia o boa tarde". Foi uma das observações mais geniais que ouvi na vida. Esse é o João.

Filósofo, inteligentíssimo e superautêntico. Outra passagem genial foi no antigo Palace, em São Paulo. O dono, Fernando Alterio, estava preocupado com o show, com medo de que João não aparecesse ou parasse no meio. Mandou então que avisassem pelos alto-falantes da casa que durante o espetáculo seriam suspensas as bebidas e que o público tivesse cuidado com conversas ou barulho de copos. Mas eis que, no meio de uma música, logo no início, João simplesmente para de cantar. O silêncio era sepulcral e o João saiu-se com esta: "Desculpem. Vocês não têm nada com isso. Aliás, estão se comportando divinamente. Mas sabem aqueles bichinhos que ficam rodeando as lâmpadas? Tem um aqui que não para. E como eu não mato nem uma mosca, eu vou esperar para que ele voe antes de continuar". Foi uma ovação. Poderia contar muito mais sobre minha experiência com esse gênio, mas acho que seria redundante. O importante é que tudo é verdadeiro e autêntico, nada é antipatia ou petulância. Parabéns João. E, por favor, não mude. De falsos já estamos cheios.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.