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A tal da masculinidade tóxica

Não estamos tratando de um suposto mimimi, estamos lidando com assassinatos e estupros

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2018 | 02h00

Fui convidado para fazer parte de um programa chamado Amor & Sexo, conduzido por Fernanda Lima. Em meio a demonstrações elaboradas de música e dança, houve um bom debate sobre masculinidade. Foi trazido à tona o conceito de “masculinidade tóxica”. 

A toxidade do masculino é autoevidente. Estupros, pedofilia, acidentes de trânsito com mortes, homicídios, feminicídios, latrocínios, misoginia, assédio, brigas de bar e muitas coisas mais são exclusivas ou dominantes do planeta Marte, o deus cujo escudo se tornou o símbolo dos homens. Sim, há mulheres que assediam e que matam. No planeta Vênus (cujo espelho é o símbolo do feminino), a toxidade existe, porém de forma muito mais esporádica. Os símbolos são eloquentes: Marte é o deus da guerra e Vênus preside o amor. Dado importante: toda doença venérea é derivada de Vênus, ou seja, traz a ideia errada de que a mulher seria sempre fonte da contaminação. 

Como acontece em períodos pós-ditaduras, os que fizeram a derrubada do sistema antigo associam todo o mal ao autoritarismo anterior. A ditadura do masculino não terminou, porém apresenta brechas feitas pela consciência feminina que cresce década a década.

O machismo parece ser similar à inveja: erro que todos sofrem, mas ninguém inflige. Um dos convidados perguntou à plateia se alguém era machista e nem um único braço se levantou. O ambiente era de crítica à noção de macho predador, porém houve maior constrangimento do que verdade na imobilidade dos braços.

Todos somos machistas em variados graus. Não poderia ser diferente. Fomos criados assim desde o começo. Nosso vocabulário, nossas ideias culturais, nossas regras morais e até nossos textos religiosos reforçam as práticas misóginas. Ninguém nasceu no Sol, todos viemos de Marte ou de Vênus. Não somos neutros. Militantes feministas são (ou seriam) aquelas e aqueles que mais conseguiram se afastar do molde cultural misógino. Homens conscientes e críticos da masculinidade tóxica também lutam bem contra sua identidade marcada pela misoginia. No entanto, uns e outras precisamos de atenção constante. O uso do cachimbo entortou a boca. Nós lemos Madame Bovary e Ana Karenina e não Senhor Bovary ou Ivan Karenino. Nós perguntamos sobre a fidelidade de Capitu, nunca sobre a chatice paranoica de Bentinho. Em algum momento da juventude, nossa boca julgou o mesmo comportamento sexual com dois animais distintos: piranha e garanhão. O depreciativo implícito do peixe e o elogio ao mamífero estão além da zoologia, inserem-se no campo do discurso tóxico que homens e mulheres aprenderam cedo. Levamos milênios para construir uma identidade masculina dominante nas sociedades; provavelmente, não resolveremos a questão em seis meses. 

A existência de mulheres apoiando candidatos misóginos à Presidência mostra que a jornada é longa e a luta intestina. Não basta o/a candidato/a ter evitado frases machistas pelos seus treinadores midiáticos. É necessário identificar na sua biografia e ação um genuíno pensamento feminista. Ética, luta contra o racismo e combate à misoginia e homofobia não são adereços desejáveis na mulher ou no homem que pretende a Presidência (e o Congresso!) em 2019, porém condições indispensáveis e totais para que ela ou ele possam (sequer) concorrer. 

Quase todos fomos criados em ambientes misóginos. Quase todos fomos educados com a crença de que certas afirmações de machismo eram virtuosas. A cultura masculina é tão forte que mulheres incorporam o preconceito. Não estamos tratando de um suposto mimimi, estamos lidando com assassinatos e estupros. A mulher negra de classe social mais baixa é a vítima por excelência, mas o risco recai sobre todas. Como dissemos várias vezes no programa citado, também precisamos libertar nós, homens, do peso do machismo, que institui um papel pesado e muitas vezes limitador. A toxidade atinge os homens, inclusive, ainda que as vítimas reais dela sejam mulheres e população LGBTI.

Algumas coisas do passado ficaram mais evidentes e claras com o passar dos anos. Quem hoje, de sã consciência, acharia justificável a escravização de um ser humano por outro? Quem aceitaria ver na rua uma pessoa atada em ferros ou um capitão do mato perseguindo um indivíduo pelo Ibirapuera? Até o mais empedernido conservador lutaria contra. Curiosamente, a misoginia e a violência contra as mulheres pertencem ao mesmo momento da escravidão. Conseguimos dar um passo abolindo o trabalho compulsório e ficamos lá, nos séculos anteriores, quando o tema é o feminino. Mais uma vez, não estamos debatendo biquínis ou cabelos soltos, falamos de assassinatos e de espancamento. 

É preciso reformular nossa linguagem, nosso pensamento e nossa ação. Todos já utilizamos expressões como “é preciso ser macho para”, associando coragem e resistência ao masculino. Por que nunca “é preciso ser muito fêmea” para enfrentar tal problema?

Enquanto houver um homem orgulhoso de “ajudar” a esposa ao trocar a fralda ainda estaremos no campo do estereótipo e das obrigações sociais assumidas como naturais ou biológicas. Sem que nos atentemos, essas concepções machistas, naturalizadas em nossas vidas, param na lei. Enquanto a licença-paternidade não equivaler à feminina, um pai sempre terá menos tempo na primeira infância do filho. Isso para o pai que não se furta à responsabilidade do título. Discute-se previdência, prevendo menos anos de trabalho para as mulheres do que para os homens, por conta de sua “dupla jornada”: no lugar do ofício e em casa. Por que não discutimos a dupla jornada masculina?

Enfim, a preservação da vida e a própria felicidade podem ganhar com o fim da masculinidade tóxica e a emersão de um homem diferente, capaz de se entregar a um prazer um pouco além da bravata com testosterona. É preciso manter a esperança.

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