A surpresa de um comando improvisado

Corte Seco chega a ser desagradável ao tentar incorporar o acaso num jogo em que o árbitro parece agir por capricho

Mariangela Alves de Lima, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

Para a pedagogia da arte e também para outros campos do ensino, a improvisação é um meio excelente para desinibir os aprendizes e ao mesmo tempo sintonizá-los com um repertório interior de experiências e desejos que a vida cotidiana não solicita. Na formalização artística, contudo, o espaço para a manifestação criativa vinda diretamente da fonte semiconsciente, indomada pelas exigências da comunicabilidade, emerge raramente em poéticas vanguardistas. A situação surpreendente, a frase espontânea e o frescor do gesto inesperado são, na verdade, resultados de um estágio anterior ao da interiorização dos códigos linguísticos e, por isso mesmo, privilégios da infância. Provavelmente é a essa espécie de pureza que aspiram os movimentos artísticos que acolhem e estimulam a improvisação. Querem animar os palcos, galerias e museus com o sopro da criação original. Quem ocupa um espaço cênico e se apresenta diante de outras pessoas, contudo, não pode esperar a complacência amorosa das famílias e tribos. Tem diante de si um estranho com quem precisa entender-se de algum modo, ainda que seja através do choque da incomunicabilidade absoluta. Neste caso, a premeditação é inevitável.

Como tudo o mais que se impõe à vontade dos artistas, a premeditação é um desafio que o teatro tenta vencer, alargando o tempo e o espaço do imprevisível ou fingindo render-se ao acaso. Corte Seco transforma em tema esse desejo e põe em cena várias narrativas que podem se desenvolver simultaneamente, em sequência, em paralelismo ou mesmo em espaços fora do palco (os bastidores, camarins e a fachada do teatro são invadidos pela representação). Embora as histórias tenham sido concebidas pelo grupo de criadores, são organizadas no tempo e no espaço do espetáculo segundo a arbitragem da direção. Aparentemente, não são improvisados os temas, os diálogos, a caracterização das personagens e o desenho dos movimentos dentro e fora do palco, porque tudo isso foi produzido e ensaiado pelo grupo. O que se apresenta como surpresa é o comando de voz da diretora Christiane Jatahy alterando as sequências, intercalando cenas e impondo, por meio de um aparente sorteio numérico, a ordem que deve prevalecer no espetáculo. Se esses comandos variam a ponto de propor combinações que constituem absoluta novidade para os intérpretes e técnicos, trata-se de uma direção improvisada. Se há combinações mais ou menos interessantes e funcionais, só saberá quem assistir a todos os espetáculos.

De qualquer forma no teatro, seja qual for o sistema adotado, a direção sempre fica a cargo de quem tem vocação para comandar. Talvez seja um propósito de Corte Seco evidenciar essa função de comando sem nenhuma hipocrisia, mas o resultado beira o desagradável porque, uma vez em cena, tudo é teatro. É teatro, por exemplo, a postura repousada da diretora, quase casual, arbitrando o jogo de acordo com alguma coisa nos parece capricho. No dia anterior - quem sabe? - esteve atenta e respeitosa diante do elenco que literalmente sua a camisa. Amanhã - quem sabe? - será uma diretora previdente ao evitar rupturas que cortam as asas de determinada interpretação. A impressão de distanciamento da diretora e dos técnicos, alinhados no canto do palco mais ou menos como uma banca examinadora ou um corpo de jurado funciona como dramatização da rigidez intrínseca que divide, na arte e na sociedade, os saberes e competências. Embora saibamos que muita coisa funciona desse modo, uma forma de teatro que lida com a matéria dramática proposta pelos atores e se propõe a incorporar o acaso combina mal com a hipertrofia da direção.

Seria menor o incômodo com o autoritarismo se as cenas fossem mais envolventes. São muito bons os intérpretes e as personagens se firmam rapidamente com traços nítidos e ao mesmo tempo com economia para não ultrapassar a linha que leva à caricatura. Como as situações são apenas esboçadas, essa medida de equilíbrio entre nitidez e intensidade é uma qualidade apreciável do espetáculo. Por um bom tempo seguimos com interesse as personagens esperando que, em algum momento, façam alguma coisa mais interessante do que a fricção juvenil do convívio social. Em vão. Todas as propostas se dissolvem em um absurdo jocoso, não sabemos se porque foram desviadas do seu curso pelas interrupções ou se em razão de uma irrelevância de estatura filosófica que considera fúteis todos os esforços para imprimir significados às narrativas. Mas, neste caso, sem piedade, sem temor e, tampouco, sem a possibilidade de usufruir rindo essa liberdade.

Serviço

Corte Seco. 100 min. 14 anos. Teatro Anchieta (320 lug.).

Rua Dr. Vila Nova, 245, telefo-ne 3234-3000. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 20. Até 14/3

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