A sombra dos clássicos nos modernos

Metafísica aristotélica é usada para entender o mundo contemporâneo, num estudo que vai dos gregos a Wittgenstein

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

O que se conhece hoje por metafísica era chamado por Aristóteles de "filosofia primeira" - e foi isso que inspirou o filósofo José Arthur Giannotti na hora de batizar seu novo livro. Por uma dessas inexplicáveis coincidências, ele sai no momento em que a WMF/Martins Fontes lança toda a obra do filósofo grego (inclusive os apócrifos) e a Editora É ultima a publicação dos comentaristas de Platão e Aristóteles. Claro que Giannotti esclarece, logo na apresentação do livro, que se trata de uma introdução "meio enviesada" à filosofia primeira de Aristóteles. Interessa ao filósofo - sobretudo - a ressonância dos clássicos na obra de dois contemporâneos, Heidegger e Wittgenstein. "Não é uma introdução, mas uma reflexão sobre a metafísica", esclarece.

E por que, então, a eleição de Heidegger e Wittgenstein? "Porque os dois recusaram o discurso tradicional da filosofia", responde. Seu livro seria uma tentativa de corrigir alguns erros de gramática filosófica - entre os quais a miopia política de Heidegger e o namoro de Wittgenstein com o totalitarismo soviético. Naturalmente, os dois não lideram o elenco principal dos filósofos estudados na obra - eles serão analisados num segundo volume -, mas o autor escolheu a dupla porque, a despeito da diferença radical entre os dois, Heidegger e Wittgenstein ainda funcionam como balizas da filosofia contemporânea - ajudando, de quebra, os editores a vender mais livros de filosofia do que imaginavam há uma década.

Giannotti admite deixar um "buraco enorme" que vai da filosofia medieval à crítica que se desenvolveu a partir de Kant. Sua "introdução ao filosofar" se detém em filósofos mais adorados do que entendidos pelas novas gerações, como Nietzsche, cuja filosofia nasceria, segundo o autor - e o próprio pensador alemão - de sua doença, de sua "falta de confiança na vida". Nietzsche, que anunciou a morte de Deus, antecipou Heidegger, mas não impediu que os europeus continuassem buscando divindades, segundo Giannotti.

Por outro lado, a imagem dos filósofos clássicos (Platão, Aristóteles) estaria em "plena decadência" em nossa era de "profissionais" da filosofia que, a exemplo dos sofistas, vendem conhecimento nos templos do saber para consumo imediato. "Os alunos querem falar mais que os mestres e a transformação do saber em mercadoria - a filosofia como ópio do povo - nos impede de fazer críticas profundas à sociedade contemporânea", diz. Temos de ser mais modestos e ligá-la à tradição, recomenda. "Não se pode ser um profissional do saber sem conhecer Plotino ou ignorar as formas de pensar extraordinárias que estão, hoje, nas mãos do grande capital, como a biologia e a astronomia."

Giannotti, 81 anos, professor emérito da USP, observa ainda que não há na filosofia contemporânea nenhum estímulo para que o pensador se comprometa com uma prática moral ou obrigações cívicas. Desde os filósofos da Escola de Frankfurt, o discurso político foi se encolhendo a ponto de cair no mesmo fosso conservador que criticava. Esse bloqueio à teoria marxista merece ser pensado, conclui.

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