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Ignácio de Loyola Brandão
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A solidariedade dos descanetados

Criou-se a ajuda de fronteira, a alegria de estar escapando por um tempo deste Brasil

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2017 | 02h00

A caminho desta praia paramos na aduana do Chuí. Do lado de lá, Chuy é escrito com Y. Os brasileiros corriam para uma saleta exígua, a fim de preencher os formulários de entrada, papeizinhos de 10 cm x 7 cm. Surgiram os primeiros problemas, não achávamos os formulários nem existiam canetas, parecido com nossas lotéricas. De repente, alguém veio com um monte de formulários que desapareceram rapidamente nas mãos de afobados. Mas, criou-se a solidariedade de fronteira, a alegria de estar escapando por um tempo deste Brasil do Temer e Alexandre de Moraes e fizemos a distribuição entre nós mesmos. Há gente que precisa de um e pega dez.

Hesitações: nombre ou apelido? E nomes duplos como o meu? E meu nome de família que é composto pelo de minha mãe e meu pai? Mal deu para escrever meu nome. O de Araraquara continuou pela estreita margem. As filas eram grandes, mas havia rapidez por parte dos uruguaios. Entrava brasileiro sem parar, uma porta foi aberta, a fila saiu para fora, bateu um vento frio. Ouvia-se a mesma pergunta:

Alguém tem caneta para emprestar?

Um senhor me estendeu uma, foi saindo, alertei:

- Espere, preencho em dois minutos, devolvo.

- Não é minha, alguém me passou e já se foi. Passe para outro, é a corrente solidária dos descanetados.

Comecei a preencher, uma jovem ficou à espera, estendeu a mão, súplice, “depois o senhor me passa, por favor?”. A atmosfera era cordial, acho que todos fizeram suas compras, nada atrai mais um brasileiro que um duty-free e o do Chuí atrai, todos queriam bebidas para o ano novo. Há certa balbúrdia, brasileiros gritam, falam alto, dão gargalhadas, uma senhora bem-humorada exclama: “Apelido? Não tenho nenhum. O que vou escrever? Meu marido me chamava de Nininha, mas me separei, nem quero saber.” Alma caridosa explicou que apelido é o sobrenome, enquanto outro diz que a palavra Itaquaquecetuba não cabe nos quadradinhos. Sugeri: abrevie. Ele colocou Itaquá e se preocupou:

 

E se o policial implicar, me tirar da fila?

- O senhor acha que com essa muvuca vão prestar atenção em uma palavra? E estão sendo cordiais.

Os aduaneiros ou seja lá qual for a palavra nem estavam aí, conferiam nome e foto, pediam a Carta Verde para motoristas, sorriam, mandavam se apressar. Pensei mais tarde, será que aquele senhor de Itaquaquecetuba vai ler esta crônica e se reconhecer? Terminei o preenchimento, mas antes de passar a canetinha, olhei, havia um logo, brinde da Morelli Ortodontia. De onde? Aqui do Sul, de São Paulo, do Nordeste, do Uruguai? Este Morelli saberá que numa véspera de ano novo salvou um mundo de gente, os descanetados?

A jovem terminou, me devolveu, recomendei: 

- Passe a outro necessitado, é a corrente solidária da fronteira.

Ela observou o nome:

O senhor é o Morelli? 

Eu? Essa caneta já passou por uns 40.

Vejo a caneta passando de mão em mão. Esperei Marcia e Rita, mulher e filha, terminarem de preencher os papéis. A canetinha salvadora circulava, poupando tempo, fazendo as pessoas sorrirem, agradecerem. Se fosse no Brasil, logo apareceria um vendedor de canetas, assim como surgem do nada vendedores de guarda-chuvas aos primeiros pingos ou camelôs oferecendo água mineral em meio aos congestionamentos. 

Não sei como ninguém embolsou a caneta. É a coisa que mais some no mundo. Uma vez, autografando livros em São Paulo, quando percebi, a Montblanc presente de meu editor, que eu tinha levado alegremente, desapareceu em um segundo, quando virei a cabeça. Em lotéricas, vejo gente cortando o barbante e levando uma Bic novinha. Entramos no carro, passamos para o Uruguai, atrasamos os relógios, aqui não existe horário de verão, os aduaneiros, gentis, desejavam boas festas, misturavam português e espanhol. Em algum lugar, alguém chamado Morelli saberá a trajetória de seu brinde? Quanto tempo mais a tinta da canetinha resistiu? Em Punta Del Diablo, ficaríamos 11 dias sem celular, sem internet, sem imprensa, sem televisão, jornais não chegam aqui. Nem acredito em tal beatitude.

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