A solidão segundo Antonio Abujamra

Em Solo, de Ugo Giorgetti, ator reflete sobre o mundo 'machucado na alma'

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

Abujamra, "Só artistas como Ugo e Altman enfrentam o risco em nome da arte"  

 

 

Uma frase do poeta Paul Valery resume, no entender de Antonio Abujamra, a essência de Solo, monólogo cinematográfico dirigido por Ugo Giorgetti: "Os acontecimentos me enojam". Esse foi um dos motivadores do ator que, por 72 minutos diante da câmera, no papel de advogado desiludido com a realidade, vocifera, critica, diverte e emociona. "A solidão do personagem é opcional", acredita. "Sentando numa cadeira, ele reflete: "Fico aqui porque o mundo está cada vez mais feio. A qualquer lugar que se olhe, percebo um mundo quebrado, machucado na alma, porque o governo, a indústria e a religião nunca deram grande atenção para a inteligência. Preferem os pobres porque sabem que eles não vão reagir.""

Curiosamente, a frase de Valery não foi incluída em Solo, apesar do pedido do ator - zeloso por seu texto, Giorgetti manteve sua integridade. Escrito a pedido de Sérgio Mamberti (que não pode interpretá-lo), o roteiro empolgou Abu - também saudoso de uma época já extinta, de uma cidade de São Paulo cujos bairros tranquilos foram aprisionados por portões de ferro, ele assumiu a saudade do homem por tempos findos. "Faz mais de 20 anos que arquitetos, intelectuais e jornalistas vêm fazendo tudo errado."

Aos 78 anos de idade (58 de profissão), Abujamra jura ter sido um ator obediente. "Fui de uma generosidade total, por conta especialmente do texto do Ugo, que escreve bem, como aqueles autores americanos que, nos anos 50, foram caçados como comunistas", explica ele, que ganhou o Kikito de ator no Festival de Gramado de 1989 por Festa, outro longa de Giorgetti. "Como minha visão crítica é semelhante à dele, acredito que o resultado final oferece uma verdade que vai ser aceita pelo espectador."

A presença do público, aliás, é seu principal temor. "Já fiz dez monólogos no teatro, mas no palco essa estrutura funciona. No cinema, tenho dúvidas, pois a imagem escraviza e, às vezes, afasta."

Cético durante as filmagens, que duraram dez dias, Abujamra lembra-se das brincadeiras que fez com o diretor. "Dizia que ele tinha acabado com minha carreira, pois nenhum ator faria aquele papel, nem Laurence Olivier."

Apesar de não ter visto, Abujamra conhece uma experiência semelhante, o filme Honra Secreta, dirigido por Robert Altman em 1984 com apenas um ator em cena, Philip Baker Hall, interpretando ex-presidente americano Richard Nixon - uma reflexão sobre o caráter e os eventos da vida do político. "Só artistas como Ugo e Altman se dispõem a enfrentar o risco em nome da arte."

Ainda sobre a não inclusão da frase de Valery, Abu encontrou uma explicação: "Ugo buscava um tom mais popular no monólogo. Fiz bem a lição de casa, mas, no fundo, isso pouco importa, porque gosto mesmo é de Shakespeare, de textos apurados", conta ele, já disposto a montar uma peça sobre um encontro entre os filósofos Heidegger e Hanna Arendt.

Trailer. Assista a trechos de Solo no site

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