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A solidão que vive em Paulinho da Viola

Pouco que não deságue em mera bajulação pode ser dito sobre a produção, em especial os discos lançados na década de 70, do maior sambista vivo. Mesmo nos primórdios de sua carreira, quando ainda não decidira abraçar de vez a profissão, Paulinho da Viola já deixava claro que suas joias líricas seriam destinadas a superlativos como impecável, exuberante, sublime. Os primeiros a perceber foram justamente aqueles de quem Paulinho herdou a condição de mestre: Zé Ketti e Cartola. O primeiro deu o nome, que até então estava engessado em Paulo César Faria. O segundo contribuiu com o boteco. E como sem mesa de zinco e cerveja não há samba, as lendárias rodas do Zicartola, em que, além dos dois, outros bambas marcavam presença, foram fundamentais para que os primeiros sambas de Paulinho tomassem forma.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Depois disso, a ascensão pegou embalo: em menos de cinco anos o sambista havia composto uma série de sucessos, além de emplacar canções nos primeiros lugares dos grandes festivais da época. Junto ao lançamento de seu primeiro disco solo, Paulinho da Viola, de 1968, os sucessos nos festivais, principalmente com a canção Sinal Fechado, indicavam o início da fase madura, para muitos a época áurea do compositor.

A Dança da Solidão, disco impecável, exuberante e sublime que será relançado amanhã pela Discoteca Estadão por R$ 14,90, é um dos marcos incontestáveis desta fase. O pontapé inicial é dado por Guardei Minha Viola, que ri das desilusões amorosas do próprio compositor.

A tristeza e a superação dela, temas que circulam pelas mais memoráveis do disco, desarmam o ouvinte em seguida com Meu Mundo É Hoje, mistura de filosofia zen e elegância melódica cujas estrofes ("nunca tomei parte, neste enorme batalhão, pois sei que além de flores nada mais vai no caixão") elevam o samba ao patamar espiritual.

As releituras de outros sambistas são pinçadas com maestria por Paulinho. 2 horas da Manhã, uma soturna canção pelo príncipe da tristeza, Nelson Cavaquinho, ganha um belo arranjo de cordas, assim como Acontece, de Cartola, o fora mais elegante que já se ouviu um homem dar em uma mulher (não surpreende que tenha vindo de Cartola).

A faixa-título dispensa apresentações. Foi gravada inúmeras vezes e nos últimos anos ficou mais conhecida na voz de Marisa Monte do que na de Paulinho. Nada menos que um obra-prima.

Mas o disco não é só solidão palavra e dentes de chumbo. O gracioso choro Coração Imprudente alivia, assim como o partido alto Pagode do Vavá e o samba Ironia, faixas ensolaradas que convivem, como na obra de qualquer mestre, a um palmo da tristeza.

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