A solidão na América da violência

A solidão na América da violência

De Sam Shepard, Mente Mentira flagra desencontros existenciais e ânsia de fuga num panorama desolador

Crítica: Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

Um dos personagens de Mente Mentira caça alces, embora não goste da sua carne. Mata-os porque é a temporada e pelos chifres como troféus. A tradição está enraizada nele e o gesto brutal e gratuito funciona como metáfora para as relações agressivas do enredo e, quem sabe, nos Estados Unidos como um todo.

Na soma de explosões individuais, o dramaturgo, e também ator, Sam Shepard quer narrar seus episódios isolados e, ao mesmo tempo, registrar a violência que seria "tão americana quanto a torta de maçã", segundo Rap Brown, o ativista do movimento negro nos anos 60.

O espetáculo se mantém entre o realismo psicológico e certa ilustração da América mítica. Existe a família desorganizada, de um lado, e individualismo autoritário, de outro. Em meio a tudo isso, o autor persiste na ilusão poética e voos de memória junto a conflitos de casais e entre irmãos mesclados de sensualidade mal contida. A ruptura surpreende e desestabiliza como um tiro ao acaso.

Sem rumo. Essa ficção vem desde os camponeses primitivos de A Estrada do Tabaco, de Erskine Caldwell (1932) passa por John Steinbeck e hoje está presente, com bem menos ênfase social, na literatura de Cormac McCarthy e Shepard. Há nesses dois últimos nostalgia e a aceitação do fim de uma era. Cormac reconstrói com um estilo um tanto pesado o sentido épico dos desbravadores; Shepard olha um pouco mais para os motéis e bares de beira de estrada cheios de figuras sem rumo definido.

No seu A Lua do Falcão se encontram trechos reveladores. Um deles: "Um trailer fantasma circula por trás dos quintais. Foi tomado por bandidos, putas mexicanas e cães. O motorista puxa o trailer com uma perua Ford 56, de meia tonelada, com vestígios de sua pintura azul metálica."

Outro: "Em Old Oraibi, no planalto do Arizona, a povoação mais antiga do hemisfério ocidental, um Buick para, um turista e sua mulher saltam dele e vão até uma pequena loja caindo aos pedaços." Eis Sam Shepard, o roteirista de Paris, Texas (Wim Wenders, 1984), um filme centrado no deserto.

A encenação de Paulo de Moraes tenta reconstituir em Mente Mentira esse panorama desolador com uma cenografia que, no entanto, desvia a atenção com seus mecanismos (alçapões, cadeiras que se deslocam, portas corrediças), enquanto a representação masculina é exterior, feita aos gritos.

Estranho porque o diretor tem um histórico de sólidas realizações baseadas nos intérpretes. O tema adquire densidade convincente com o elenco feminino. Na metade da peça, mãe, Lorraine (Malu Valle) e filha, Sally (Keli Freitas) se entregam, enfim, a um diálogo revelador. O mesmo efeito dramático surge quando a mulher, Meg (Roza Grobman) diz verdades ao marido prepotente.

O que destoa nessa sequência é a estilização gestual que dilui os contornos psicológicos da vítima principal, a garota Beth (Fernanda Machado) barbaramente espancada pelo marido Jake (Malvino Salvador). É um instante delicado porque, como o título insinua a verdade dela e dos demais, comporta nuances e fantasias. Este contraponto subjetivo no íntimo da família é mais bem sublinhado pela música de Ricco Viana e a iluminação de Maneco Quinderé.

Caubói deslocado. De qualquer forma, ao longo da representação de Mente Mentira (A Lie of the Mind, no título original) , estão presentes os desencontros existenciais, incomunicabilidade, a ânsia de fuga que caracterizam parcela do teatro americano. Shepard, à sua maneira, é o caubói deslocado que aprendeu o rumo de Hollywood, onde fez carreira.

O americano alto, magro, aparentemente silencioso na sua persona cool, mas que escreveu versos sobre uma corrida com o pai, que ganhou ("naquela noite fui para a cama/ E sonhei com o poder de um trem"). O acontecido é recontado na peça em termos cruéis. Não se sabe direito quanto de verdade e de mentira aparece no palco. Daí, o interesse.

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