A solidão humana nas lentes de Kaurismaki

Diretor toca nas angústias do homem moderno em Luzes na Escuridão

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2010 | 00h00

Foram eles que colocaram o cinema finlandês no mapa - os irmãos Aki e Kika Kaurismaki. O segundo tomou-se de amores pelo Brasil e, no Rio, abriu um restaurante, somando à profissão de cineasta a de restaurateur. Aki permaneceu diretor, o mais pessoal de seu país, embora os críticos gostem de comparar o minimalismo e rigor de suas mise-en-scène às lições de Robert Bresson. Aki Kaurismaski seria o Bresson da Finlândia, mas seu cinema não busca a ascese do autor francês. Aki não é metafísico como Bresson. Seu cinema é mais social, embora suas análises da solidão toquem no mais fundo da angústia do homem.

Em Cannes, há dois anos, ele citou Proudhon - "A propriedade é o roubo" - para contextualizar, senão realmente explicar, Luzes na Escuridão. O filme é a parte final de uma trilogia. Em Para Onde Vão as Nuvens?, Aki Kaurismaki falou do desemprego; em Homem Sem Passado, que o candidatou ao Oscar de melhor filme estrangeiro, discutiu a busca da identidade. Em Luzes na Escuridão, radicaliza a indagação sobre a solidão humana, indo na contramão de Homem Sem Passado. Lá, o personagem era um amnésico em busca de si, tentando ser quem era. Aqui, é um homem em busca de um futuro.

Janne Hyytiäinen é o intérprete do papel. Ele conversou pelo telefone, de Helsinque, com o repórter do Estado. Nunca esteve no Brasil, mas acha que conhece um pouco o País pelas histórias contadas por Aki, com base na vivência do irmão Kika Kaurismaki. Janne admite que tem visão estereotipada do Brasil - futebol e samba. Curiosamente, o ritmo presente em Luzes na Escuridão é o tango e a primeira música que se ouve é Volver, que Almodóvar também utilizou.

Homem Sem Passado e Luzes na Escuridão mostram uma Finlândia noturna, de paisagens desoladas, habitada por derrotados. O país é assim? "O que o espectador vê é filtrado pelo olhar do diretor, mas a Finlândia é assim mesmo. O inverno é longo e pesado, a globalização excluiu uma parcela considerável da população. Aki pode colocar ênfase nesses aspectos pouco positivos, mas com certeza não mente." O filme quase não tem diálogos. "Isso é coisa de Aki. Os filmes dele são muitos escritos e não deixam margem para improvisação, mas, curiosamente, quase não existem diálogos. Como diretor, ele espera que seus atores sejam capazes de se exprimir pelos olhares, gestos."

Em Cannes, muitos críticos definiram Luzes na Escuridão como um filme "chapliniano". Chaplin resistiu quanto pôde ao avanço do cinema sonoro. Sua arte eras feita de gestos, silêncios, não de palavras - mesmo que ele a tenha usado admiravelmente em O Grande Ditador. O próprio personagem tem algo de Carlitos, na solidão e desajeitamento perante o mundo. "Estranho quando me dizem isso. Quando criei o personagem, a referência no meu imaginário era outra - o Travis deRobert De Niro em Motorista de Táxi, de Martin Scorsese."

Como Travis, o (anti)herói de Luzes na Escuridão é um solitário com dificuldade de amar e ser amado. Travis faz uma guerra em defesa da prostituta mirim interpretada pela garota Jodie Foster. Janne é segurança, exercendo a função numa joalheria. Isso coloca no seu caminho a mulher (fatal) que pretende usá-lo no seu plano para assaltar o local. Kaurismaki, em Cannes, havia definido a personagem como "a mulher mais calculista desde Eva". O filme reabre a vertente do noir. O próprio clima noturno tem a ver com essa tendência de cinema. Embora o impacto seja inferior ao produzido por Homem Sem Passado, o filme é muito bem feito. Kaurismaki trabalha a luz - uma luz silenciosa - como só os maiores sabem fazê-lo. O filme foi bem na Finlândia? "Não muito. Fez mais sucesso fora do país, mas é o preço que Aki paga por nos confrontar com nossa miséria humana e social", afirma o ator.

Trailer. Veja cenas do filme Luzes da Escuridão no site

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