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A Solange não é mais a mesma

Só mesmo a Solange, a prima que adora falar difícil, para de repente interromper o papo (seccionar o fio do colóquio, diria ela), alegando problemas de pituíta.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2014 | 02h07

Pitu o quê?!

Pituíta, repete ela, separando bem as sílabas - e esclarece ao primo apoucado, notoriamente irritada com a ignorância de quem a fez descer ao rés-do-chão da linguagem mais prosaica: de que outra forma poderia ela, sem ferir o bom gosto, referir-se à secreção que, por força de um resfriado, lhe escorre das narinas?

(É assim que ela fala - você chega a ver as vírgulas caindo entre palavras.)

Coisas da Solange, a tal cujos cabelos não fazem ponta dupla, e sim "pendoam", "bifurcam nas extremidades". Essa ave rara que, para não incorrer na vulgar diarreia, vai de "insopitável fluência intestinal". No mesmo terreno das porcarias, aliás, já que descemos a esse nível, a prima jamais dirá "cê-cê": prefere "hircismo" - e, ante o pasmo do interlocutor, explicará que a palavra remete a bode, esse animal malcheiroso que em latim se chama "hircus". Para mim não será surpresa se a Solange um dia me comparecer com "fetidez podal" em vez de reles chulé.

Eu a conheço bem, e posso garantir que a prima não fala difícil para impressionar, como faz tanta gente neste país de alma bacharelesca. Não seria justo engavetá-la na categoria dos nouveaux riches do léxico - esses, por exemplo, que agora deram para chamar salão de manicure de "esmalteria", cabeleireiro de "arquiteto capilar" e massagem nos pés de "reflexologia podal". Gente como aqueles jornalistas portugueses que cobriram a visita de Pedro II a Alexandre Herculano, em Lisboa, e produziram prosa tão cravejada de preciosismos que sobre eles desabou a ironia do mestre Eça de Queiroz.

Quem conta é o maranhense Lago Burnett, em A Língua Envergonhada. O encontro, zombou o Eça depois de ler os jornais, se deu no "retiro", no "tugúrio", na "tebaida", no "aprisco", no "abrigo", no "albergue", no "exílio" ou na "solidão" de Alexandre Herculano. Ninguém escreveu "casa", palavra por demais pedestre para designar a morada de tamanha unanimidade literária.

A Solange, a quem mostrei o texto, adorou "tugúrio" e "tebaida", mas disse que não chegaria a tanto; teria preferido "domicílio". Viu exagero, também, na passagem em que Lago Burnett goza (ela diria "escarnece") um locutor de rádio que anunciou nestes termos o aniversário de um menino: "Deflui hoje a data genetlíaca do robusto pimpolho". A Solange admite que o radialista passou do ponto - mas vi um brilho em seus olhos ao se depararem com "genetlíaca".

Não haverá neste mundo muitos outros sabedores de que os pelos do interior do nariz têm nome; não se espante se a prima lhe recomendar que apare as vibrissas. Se alguém boceja e espreguiça em presença dela, corre o risco de ouvir que está "pandiculando", ou seja, se esticando todo.

Poucos sacerdotes católicos, desconfio, serão capazes, como a agnóstica Solange, de nomear cada peça do guarda-roupa dos padres, bispos e cardeais, e a parafernália que eles mobilizam nos ofícios religiosos - e mais, de enumerá-los como em ladainha: caldeirinha, casula, custódia (ou ostensório), dalmática, estola, gomil, hissope, manípulo, naveta, pala, pálio, píxide, resplendor, turíbulo.

Pernóstica? A Solange rejeita o rótulo; acredita que se as palavras estão no dicionário é para serem usadas. Faz sentido adquirir um bem e não utilizá-lo?, argumenta ela, como se falasse de um escorredor de arroz. Seu critério, até agora, tem sido este: entrou no dicionário, pode usar. Mesmo que se trate de abominações como "otimizar", "elencar" e o "precificar" que o ministro Mantega desenterrou dia desses numa entrevista. Se bem que o ministro, corrige a Solange, fez mau uso da palavra: quis dizer aumentar preço, não "apor etiqueta de preço sobre mercadoria", como está no Houaiss.

Posso estar enganado, mas sinto que a Solange vai tomando gosto até por esquisitices não dicionarizadas, diante das quais, observo, seu coração bascula. Gostou, quem diria, da "flunfa", de que falei aqui, aquele algodãozinho que o roçar da roupa faz acumular-se nos umbigos.

Força é reconhecer: a prima não é mais a mesma.

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