Imagem Fábio Porchat
Colunista
Fábio Porchat
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A situação tá preta

Patroa - Edilene.

Fábio Porchat,

30 de junho de 2013 | 02h17

Empregada - Sim, senhora.

Patroa - Em relação àquele assunto financeiro...

Empregada - Sim, senhora.

Patroa - Eu não vou estar podendo te dar um adiantamento.

Empregada- Tudo bem, senhora.

Patroa - Vou te pagar tudo daqui a uma semana. Como o combinado.

Empregada - Não tem problema.

Patroa - A situação está preta, o país em crise...

Empregada - Eu sei, sim senhora.

Patroa - O Mascarenhas está desempregado...

Empregada - Não se preocupe.

Patroa - E por mais que possa parecer que eu e o Mascarenhas estejamos levando uma vida boa, não estamos.

Empregada - Sim, senhora.

Patroa - É tudo fachada, Edilene. Tudo aparência. Os bancos tão atrás do Mascarenhas. Cobrador, agiota, tudo. Eu mesma tive que me privar de certas regalias, certos luxos. A situação está preta.

Empregada - A senhora falou.

Patroa - Edilene, você é uma pessoa muito boa.

Empregada - Obrigada, dona Claudia.

Patroa - É sim. Sua compreensão, mesmo num tempo de dificuldades para todos, é louvável. Obrigada, Edilene.

Empregada - O que é isso, dona Claudia.

Patroa - Mas, mês que vem! Mascarenhas está com um projeto que se der certo... Só tá faltando um investidor.

Empregada - Que bom, dona Claudia.

Patroa - Alguém que acredite e que, mesmo em meio ao caos financeiro geral, ainda tenha dinheiro.

Empregada - Sei, sim senhora.

Patroa - É aí que entra você, é por isso que eu te chamei. Eu e o Mascarenhas precisávamos de outro empréstimo.

Empregada - Quanto?

Patroa - E dessa vez você ainda entra de sócia fundadora.

Empregada - Quanto?

Patroa - O suficiente para o projeto andar.

Empregada - Quanto?

Patroa - Não existe um valor específico. Nada que você não se sentisse disposta a ceder. Algo em torno de...

Empregada - Eu vou fazer o seguinte dona Claudia, eu vou dar o mesmo valor do empréstimo passado...

Patroa - Isso seria ótimo.

Empregada - Mas tem um porém.

Patroa - Qualquer coisa.

Empregada - Eu não quero saber de juros nem nada. Eu vou dar um prazo de quarenta e cinco dias...

Patroa - Só quarenta e cinco?

Empregada - Dona Claudia!

Patroa - Sim, senhora.

Empregada - Eu vou dar um prazo de quarenta e cinco dias, e se ele não for cumprido, eu fico com o sofá da sala e com o tapete do hall.

Patroa - Está bem. Mas fique tranquila que isso não vai acontecer.

Empregada - Eu tenho que ser um pouco mais rígida dessa vez. A situação está preta, o país em crise...

Patroa - Eu sei sim, senhora.

Empregada - Então amanhã eu deposito o dinheiro na conta de sempre.

Patroa - Obrigado, senhora. Edilene, o jantar está servido?

Empregada - Ainda não.

Patroa - Mas eu não falei que queria o jantar servido sempre às 20h45?

Empregada - É que...

Patroa - Tá bem Edilene, tá bem... Não precisa se explicar. Eu entendo que você tenha se atrasado. É normal se atrasar. Todo mundo sempre atrasa. Cinco, dez, às vezes quinze...

Empregada - Dona Claudia.

Patroa - Quarenta e cinco dias, pode deixar.

Empregada - A situação tá preta...

Patroa - O país em crise...

Empregada - Ainda bem que a

senhora entende.

Tudo o que sabemos sobre:
Fábio Porchat

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.