A serenidade enigmática, por de Chirico

Grande mostra do mestre da pintura metafísica chega ao Masp reunindo mais de 100 obras

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2012 | 03h11

A tragédia da serenidade. A expressão, num dos escritos de Giorgio de Chirico (1888-1978), se refere a seus pensamentos sobre a estética metafísica, movimento pelo qual o pintor se inscreveu na história da arte do século 20. "Na construção da cidade, na forma arquitetural das casas, das praças, dos jardins e das paisagens, dos portos, das estações ferroviárias, etc., estão os primeiros fundamentos de uma grande estética metafísica. Os gregos tiveram certo escrúpulo nessas construções, guiados pelo senso estético-filosófico: os pórticos, os passeios sombreados, os terraços erguidos como plateias diante dos grandes espetáculos da natureza", definiu o artista em 1919.

Na década de 1910, o greco-italiano De Chirico começou a pintar suas paisagens urbanas enigmáticas, cidades melancólicas formadas por construções da arquitetura antiga e clássica, das quais emergem sombras e figuras humanas, estátuas ou manequins isolados sempre com o chão quase ocre, a luminosidade do céu em camadas verdes e amarelas. Um criador referencial, o artista tem agora apresentada no Brasil a primeira antologia de sua obra, a mostra De Chirico: O Sentimento da Arquitetura, com 45 pinturas, 11 esculturas e 66 litografias pertencentes à coleção da Fondazione Giorgio e Isa de Chirico, sediada em Roma, na casa onde ele viveu a partir de 1944.

A exposição, primeiramente, foi apresentada na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Com curadoria da arquiteta e crítica italiana Maddalena d'Alfonso, a mostra será, depois, exibida na Casa Fiat, em Belo Horizonte (entre 29 de maio e 29 de julho). Mesmo que reúna obras que o artista executou, especialmente, nas décadas de 60 e 70, a antologia representa, na verdade, todo o seu pensamento artístico - como afirmou a curadora ao Estado por ocasião da exposição em Porto Alegre, De Chirico promoveu uma espécie de "antropofagia" de suas questões durante toda a sua carreira.

A cidade, na obra de De Chirico, é "renascentista e moderna ao mesmo tempo", afirma Maddalena. "Por isso, foi amada por Breton como o espaço surreal", define ainda a curadora. Ela se refere ao período, até meados da década de 1920, em que De Chirico era admirado pelos surrealistas, liderados pelo poeta francês André Breton. Em 1925, o greco-italiano rompe relações com o escritor, que o critica por persistir em sua pesquisa figurativa. A crise leva o pintor a mergulhar ainda mais no classicismo - o impasse o faz reafirmar seu tema com a arquitetura, explorando-a tanto na representação do que seriam espaços arquitetônicos imaginários - a praça - como interiores de casas; promover fragmentações simbólicas em suas composições; e chegar, até mesmo, a pintar lugares dentro de corpos - uma imagem que ele ainda transfere para a criação escultórica.

Passado e presente, de uma forma metafórica, criativa e inquietante, estão sempre interligados na coerência da obra metafísica e neometafísica de Giorgio de Chirico - ele usa não apenas o espaço ideal da antiguidade greco-romana, como incorpora às suas criações a arquitetura real de lugares da Itália, Alemanha, França e Nova York, localidades onde viveu. Já os homens são espécies de "não-homens", como define o curador do Masp, Teixeira Coelho - manequins sem rostos, entre objetos e "restos da arte e da civilização".

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