Robson Fernandjes/AE
Robson Fernandjes/AE

A sereia do sapato azul

Cibelle traz seu alter ego para São Paulo em instalação multimídia

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Sonja Khalecallon baixou na Oscar Freire esta semana, juntando música, artes plásticas, moda e vídeo. Montou uma gigantesca e coloridíssima instalação na fachada de uma loja de calçados femininos, juntou restos de fantasias e carros alegóricos da escola de samba Vai-Vai, animou a festa tocando Roberto Carlos, chicha, calipso, cumbia (ela tem uma banda do gênero, Me Tarzan You Jane), garage do Camboja, da França e da Itália, música dos Bálcãs, coisas engraçadas. No auge da festa, ela também exibiu o vídeo da campanha da grife com as doideiras de sua exótica personagem.

Na instalação, que criou toda sozinha, ela reciclou material da própria loja, como os tubos de néon, colocou um arco em forma de coração na porta e instalou os ícones de sua excessiva caricatura. Os "produtos Sonja para uma vida melhor" são a loção anti-cético ("pra quem está muito secão e acha que já viu tudo"), o colírio do olho fresco ("para ver o mundo sem bagagem emocional, sem julgamento, sem preconceito"), o botão do foda-se (ou botão do abravana) e a superbacana carteirinha de licença poética, "que não se aplica só às palavras". "Se eu quiser raspar minha cabeça pela metade, pintar o outro lado de azul, enfiar glitter na metade do meu rosto e sair de biquíni no meio da Avenida Paulista, estou usando uma licença poética", diz.

Do alto se seus saltos azuis, o alter ego da cantora Cibelle comemorou, com esse aparato kitsch-chic - "In tosco we trust" é uma de suas frases de efeito - o lançamento de um modelo da Melissa inspirado na canção Sapato Azul, de seu sensacional terceiro álbum, Las Vênus Resort Palace Hotel. Lançado no primeiro semestre em CD, o disco vai ter alguns exemplares em vinil importados pela gravadora ST2 em breve. Mas nada de show aqui, por enquanto.

Abravanar. Coerente com seu "antropofagismo", Cibelle chamou seu amigo Rick Castro (que apareceu na festa vestindo uma espécie de parangolé) para abravanar o jardim de inverno. Foi ele quem inventou o termo abravanar, que significa relevar, "se soltar, aceitar, deixar ir, desapegar", ou também "ligar o botão do foda-se" no vocabulário cibéllico. "Rick inventou essa gíria sem querer. Foi quando a filha de Silvio Santos, Patrícia Abravanel, perdoou o sequestrador - ela abravanou, se desapegou."

Parece tudo uma grande brincadeira, mas Cibelle e Sonja acabam se confundindo na real. Sonja, que costura as canções de Las Vênus, vem de Sonia, amiga de Rick, guru que trabalha o desapego nas pessoas. "E eu pratico o desapego, mesmo antes de conhecê-la. Então quando a gente está com o armário cheio e vai dar as coisas, a gente fala: passa em casa que eu vou fazer uma Sonja." Ela até fez uma performance em Londres que se chamava Fazendo a Sonja, em que dava objetos pessoais, que levou do Brasil, "com memória afetiva e tudo". "A pessoa podia pegar só um objeto de cada vez e fazer a sua memória sobre aquilo. Eu já tenho a minha, não preciso do objeto. Tinha um frango de plástico que foi parar na vitrine de uma loja de pequenas curiosidades de Londres."

Batismo. Cibelle foi convidada para redecorar a fachada da loja e batizar o sapato. "Eu tinha um projeto de uma instalação gigantesca, que precisava de uma verba enorme. Então juntei tudo", diz a cantora e compositora, que fez os infomercials interligados com os elementos do disco e são do retro-futuro, de depois do fim do mundo. "Pensei em ambientar a coisa de maneira que a energia entra por uma mão, sai pela outra e fica rodando, para ficar a vibe dos produtos nas pessoas. Tem um brilhinho para segurar a onda energética. Você entra na loja pelo coração, lá dentro você está no universo de Sonja", explica. "Sonja é assim: Vamos lá gente, muito amor, vamos montar uma coisa feliz."

No jardim de inverno eles criaram "uma lembrança do videoclipe" da música Sapato Azul. "Isso me inspirou muito para o próprio Las Vênus." O clipe foi gravado no cemitério de carnaval da Vai-Vai, com seus restos de alegorias. Las Vênus é um lugar onde as plantas cresceram e comeram tudo. Então tudo é reciclado.

Sons do pós-fim do mundo. O j de Sonja se pronuncia como i, mas é para remeter a esponja, "que absorve tudo e todos". A personagem veio antes do disco e foi aí que a estilosa Cibelle resolveu ficar holística, no sentido de fazer tudo junto. "Não posso ficar separando se cada disco para mim tem um conceito. Não me sento para escrever canção, isso é raro para mim. Eu sou o contrário total do que todo mundo faz. Eu não entendo o pop, faço música porque acontece que eu canto. Sou sinestésica. Som e imagem são a mesma coisa."

Difícil de entender? Nem tanto. Cibelle atingiu o ponto alto de sua carreira com Las Vênus, fazendo música com total "desapego" a qualquer regra. São canções, sim, com influências assumidas dos tropicalistas - Gal Costa, Rita Lee, Mutantes principalmente, e Caetano Veloso ("quer coisa mais "botão do foda-se" do que Araçá Azul?) -, da peruana Yma Sumac, folk, eletrônica, psicodelia, balada melancólica, gypsy punk, a incrível guitarra de Fernando Catatau (que aqui soa peculiarmente bem diferente de seus outros projetos), a bateria de Pupillo, os teclados e efeitos de Apollo Nove e todo um espectro sonoro de pós-fim de mundo de sua ótima banda Los Stroboscopious Luminous.

Três achados do álbum são os covers do mambo Underneath the Mango Tree, que Ursula Andress cantava no filme Dr. No (1962), de Lightworks (Raymond Scott) e It"s no Easy Being Green, que o sapo Kermit (ou Caco), dos Muppets, cantava. A cara dela. Outra faixa cativante é The Gun and the Knife, em duo com Sam Genders, da banda Tunng.

Identificada como sereia tropical, Carmen Miranda pós-moderna e nova Astrud Gilberto, entre outros codinomes elogiosos, ela não desperdiça energia preocupando-se em "ser aceita" nem com os maneirismos culturais de sua origem. Brasileira, internacional, pop, eletrônica, pós-hippie, experimental, vanguarda? "Abravana." Tudo é beleza e mistério.

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