A sensível jornada de Cleyde Yáconis

O palco se ilumina para a entrada deMary e James Tyrone, que conversam sobre frivolidades, enquantose ouvem as gargalhadas dos filhos, que ainda estão à mesa.Durante alguns minutos, pouco acontece e os diálogos servemapenas para apresentar o drama que está por vir. "No início dapeça, realmente não acontece quase nada, mas é um momentoimportante para que os atores já preparem a platéia para ahistória", conta Cleyde Yáconis, que interpreta Mary ao lado deSérgio Britto (James) em Longa Jornada de um Dia Noiteadentro, texto de Eugene O´Neill que cumpre curta temporada noCentro Cultural Banco do Brasil.A aparente tranqüilidade encobre, na verdade, umarelação que está prestes a explodir: viciada em morfina, Marymantém a convivência com o marido e os filhos Jamie (Genézio deBarros) e Edward (Marco Antônio Pâmio) em constante tensão. E,para revelar ao público os detalhes do comportamento de uma mãealucinada, Cleyde Yáconis apresenta um trabalho elaboradíssimode interpretação em que, do aspecto saudável revelado por Maryno início da peça, surge uma mulher sem domínio de seus atos epalavras. "Trata-se de um personagem que exige uma composiçãosistemática e preocupada com detalhes", comenta Cleyde.A atriz compõe a figura da morfinômana com toda a ruínae descontrole de movimentos dos viciados. Desde o infantilismode Mary até seus silêncios de mágoa e semifúria, inevitáveis aosdependentes de morfina, Cleyde exibe um conjunto de expressõesfaciais que, junto da atitude corporal e das inflexões de voz,revelam um progressivo estado de decadência mental. "Tive muitocuidado em não apresentar todos os sintomas de uma só vez, poispoderia correr o risco de tornar a atuação repetitiva, algoperigoso em um espetáculo longo", comenta Cleyde, que consultouuma médica especializada no trabalho com viciados para descobrirdetalhes de comportamento.A dor muscular é um dos primeiros sintomas quando ocorpo sente a falta da morfina. As pupilas também se dilatam eas reações saltam inesperadamente do violento para o conformado."Para chegar a uma fuga verdadeira da realidade, tenho de fazeruma entrega absoluta ao papel a cada interpretação", conta aatriz, que se cercou de gestos característicos para conferirveracidade ao papel.No texto original, Eugene O´Neill observa que Mary alisao cabelo nos momentos em que sua sanidade está por um fio.Cleyde não apenas é fiel à rubrica do autor, como criou um gestoespecial, em que ajeita o cabelo detrás da orelha. "Como a peçase passa em 1912, Mary é uma mulher de família rica que foicriada para ser submissa. Ela é extremamente feminina nos gestose mantém sempre uma postura rígida. Assim, ao alisar os cabelos,Mary deveria fazê-lo com um movimento delicado", conta a atrizque, em vez de levantar o braço e permitir que a mão alcance acabeça, ela encosta o braço no tronco e desliza delicadamente osdedos da têmpora até atrás da orelha.Como é impossível demonstrar a dilatação das pupilas,Cleyde optou por um olhar vago. Já as dores musculares sãoreveladas por pequenos movimentos de corpo, que se dobrasutilmente, quebrando momentaneamente a tradicional posturareta. "São movimentos curtos e ligeiros, pois não podem desviartotalmente a atenção do público", observa. "Decidi colocar umacerta violência para contrapor com todo a feminilidade dela."O gesto é marcante no momento em que o telefone toca etodos na casa sabem que, do outro lado da linha, um médico vaicomunicar um triste diagnóstico: Edward, o filho mais novo, estátuberculoso. "Mary acredita que aquele som prenuncia uma mánotícia, por isso sofre com uma sensação de náusea", conta aatriz que, em ação, leva o braço ao ventre, sentindo uma pequenavertigem.Há uma espécie de eletricidade nas palavras e nos gestosde Cleyde, que modula a voz com uma dicção seca, nervosa,cortante. Com apenas um movimento de cabeça, durante a conversacom a empregada Cathleen (interpretada por Flávia Guedes),revela a fragilidade de uma mulher momentaneamente abandonadapelo marido e filhos.O trabalho de composição de Mary Tyrone exige de CleydeYáconis movimentos e gestos que não lhe são característicos."Sou uma mulher dura, não uso jóias nem me preocupo em escolherroupas, ou seja, o oposto de minha personagem." A atriz tambémjamais teve contato com qualquer tipo de droga ou bebidaalcoólica e ouviu apenas uma médica especialista para descobriralguns sintomas, além de ler um livro sobre o assunto. "Nãosenti necessidade de conviver com mulheres viciadas, pois queriainventar uma personagem com toda a liberdade de criaçãofornecida pelo teatro", conta. "Afinal, para interpretar umaprostituta em Navalha na Carne, de Plínio Marcos, também nãome senti obrigada a viver entre elas."A atriz também não buscou subsídios em outras montagens,mesmo que a mais famosa realizada no Brasil tenha sidoprotagonizada por sua irmã: Cacilda Becker interpretou Mary em1958, dirigida por Ziembinski. "Recordo-me de flashes daquelamontagem, que me pareceu muito sombria", comenta. "Na nossaversão, o diretor Naum Alves de Souza transformou o espetáculoem algo mais caloroso."Então com 37 anos, Cacilda também era jovem demais parainterpretar uma mulher de idade, o que a obrigou a usar umamaquiagem pesada além de uma peruca. "O ideal para se atingir aplenitude de Mary é estar com, no mínimo, 60 anos", acreditaCleyde, que está com 79. "Depois de assistir à nossa montagem,Marília Pêra me disse que tem muita vontade de interpretar essepapel. Respondi que ela deveria esperar mais dez anos."Apesar da longa duração e do labirinto de acusaçõesmútuas e do lancinante acerto de contas que marcam o texto, aplatéia do CCBB tem sido tomada por um público jovem, parasurpresa de Cleyde. "Eu esperava pessoas com mais de 40 anos",justifica. "Na verdade, o que atrai a juventude é a discussãosobre a importância da família e o tipo de amor que a cerca, oúnico a permitir a agressão."Longa Jornada de um Dia Noite adentro. De EugeneO´Neill. Direção de Naum Alves de Souza. Duração: 2h45 (com 15minutos de intervalo). De quinta a domingo, às 19h30. R$15,00.Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, SãoPaulo,tel. 3113-3651. Até 9/3.

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