A sensibilidade da razão narrativa

Robert Musil é lembrado mundialmente pelo seu romance O Homem Sem Qualidades, publicado entre os anos 30 e 40 do século passado. Mas foi uma obra juvenil, O Jovem Törless, escrita em 1906, aos 25 anos, que lhe deu sucesso em vida. Nascido na Áustria em 6 de novembro de 1880, treinado como matemático e engenheiro, ele estudou psicologia experimental, redigindo sua tese sobre o empirismo atomista do físico Ernst Mach (um dos fundadores do Círculo de Viena) paralelamente ao seu primeiro romance. Considerado "o mais sexual" dos escritores da então extravagante cena artística vienense e o mais agudo e inteligente expoente da intelectualidade da capital austríaca, ele parecia estar destinado a um papel de liderança: a ironia espirituosa dos seus retratos sociais e culturais é ímpar e ainda hoje é impressionante o tom sóbrio e, às vezes, quase cruel, com o qual Musil faz o leitor adentrar nos labirintos afetivos e eróticos dos seus personagens. Mas quem ri das brilhantes metáforas da decadência espiritual, mental e emocional do Império Austro-Húngaro em O Homem Sem Qualidades, terá de enfrentar, em seguida, reflexões complexas que podem parecer tediosas. E quem vê em Törless tão somente uma história extravagante de sadomasoquismo adolescente - o que hoje chamaríamos de bullying - viu apenas uma parte de toda a história.

Kathrin Rosenfield, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h07

Musil usa todos os seus caracteres e temas - políticos e sociais, afetivos e sexuais, jurídicos e médicos - como imagens "paralelas", seguindo o princípio dos cortes longitudinais e transversais que descrevem a vida e o mundo numa narrativa ampla e universal cuja leveza irônica está em perfeito equilíbrio com a profundidade filosófica. Os cinco adolescentes do primeiro romance já anunciam a "ação paralela" de O Homem Sem Qualidades, escrito nos anos 1920 e 30. Esse romance representa os últimos anos do Império Austro-Húngaro como retrato (melhor: retratos paralelos) das ideias vagas e deslocadas que levariam à 1.ª Guerra - e à 2.ª.

O cosmos da belle époque que antecede a Guerra de 1914-18 é um engodo, um "pretexto": esse mundo burguês já antecipa, no olhar lúcido do austríaco, os problemas da Europa autoritária e (proto)fascista que virá depois. Nos equívocos, descuidos e, sobretudo, no preguiçoso laissez-faire da velha Europa reacionária, patriarcal, atrasada, Musil localiza as raízes capilares do cipoal venenoso que brotará nos anos 1920 e 30. A velha Áustria é uma imagem de velha Europa, social e economicamente inepta e politicamente despreparada para responder aos desafios da sociedade democrática ou, como se dizia, da "sociedade de massas", com suas metas de emancipação, competição e crescente velocidade. Não apenas os romances, também os ensaios e os diários do escritor iluminam prodigiosamente essa difícil entrada na modernidade democrática e pluralista - o que aumenta seu valor em países que ainda se debatem com velhos resíduos patriarcais e patrimonialistas que subsistem nas malhas de instituições aparentemente modernas.

Musil não é um autor fácil. Por mais que cada página contenha pérolas deliciosas, sua obra exige muito do leitor, pois ela nos oferece, e depois retira, os prazeres da ilusão. Seus personagens maravilhosamente vivos e interessantes nos seduzem, mas assim que nos identificamos, Musil inviabiliza, de modo deliberado, o engodo ficcional. O olhar radiográfico dos seus romances e novelas não nos presenteia com a trégua que esperamos da literatura (de entretenimento): nas pessoas admiráveis somos obrigados a ver os esqueletos e as úlceras que já tomam forma; e as vilanias e violências tampouco são servidas nos pratos chiques da estética do absurdo, da destruição (ou do consumo): as extravagâncias sexuais, sádicas e fantasmáticas, que hoje consumiríamos com um paladar curtido por um século de efeitos especiais, não vêm, na obra de Musil, isoladas e emolduradas em short cuts. O austríaco recusou-se a embarcar na estética moderna dos expressionistas, impressionistas e decadentistas que veio a ser a nossa.

Seu duplo talento - o de artista e o do observador meticuloso dos deslizes perigosos da sua época - lhe assegurou o lugar de notável outsider em seu tempo e até hoje. Em 1942, em plena 2.ª Guerra, Musil se encontrava, interna e externamente, num beco sem saída. A ironia do destino quis que o escritor (ele diria: Dichter, poeta no sentido mais amplo de "densidade") de maior importância "em todo o domínio da língua alemã'' (segundo Elias Canetti) morresse no dia 15 de abril daquele ano no exílio na Suíça, quase no esquecimento. Além da barreira das exigências intelectuais e sensíveis de sua obra, havia também as barreiras ideológicas que o conservadorismo cristão, o fascismo e o stalinismo opuseram à inteligência aguda, precisa e às vezes cruamente lúcida de Robert Musil.

O autor de O Homem Sem Qualidades precisa ser lido lenta e intensamente, sem enquadramento em movimentos ou ideias mestras. E o leitor terá de partilhar da dupla presença do sensível e do intelectual. Mesmo em suas obras mais líricas e intensas (por exemplo, O Melro ou Tonka), Musil sempre confronta o leitor com reflexões precisas e procura dar forma e prumo aos sentimentos. Esse esforço fica particularmente claro no volume Obra Pré-Póstuma, seu testamento artístico. As histórias minúsculas desse trabalho publicado em 1936 são exemplos de uma "prosa" que se move entre parábola bíblica, poesia simbolista e reflexão filosófica, entre fábula, fragmento nietzschiano e equação matemática. Papel de Moscas apresenta a vida (humana) na parábola do inseto que ficou preso na cola venenosa: a vida como armadilha. Essa visão não faz parte da agenda do consumismo globalizado, nem da psicologia positiva ou das ideologias da felicidade hoje em curso. Ela antecipa Samuel Beckett, R. Carver ou Coetzee, cujas histórias nos fazem sentir a vida como um moroso afundar-se em areias movediças. Mais reflexiva e composta que a estética de Beckett, a obra de Musil tem momentos que anunciam claramente o charme inquietante de peças como Happy Days (Dias Felizes). Pensar em Beckett facilitará a identificação com a mosca musiliana, cujas pernas minúsculas tocam o papel colante, e que agora examina sua situação no tempo e no espaço que se esgotam: "É uma sensação muito suave, desconcertante, como se, caminhando no escuro, de pés descalços, pisássemos sobre algo; não é nada além de uma obstrução fofa e quente, porém já é algo para o qual, pouco a pouco, flui a terrível essência humana; e vagarosamente reconhecemos esse algo como uma mão, deitada aí com seus cinco dedos - cada vez mais nítidos, eles nos agarram com firmeza."

Imagens musilianas como essa, escreve Peter Wortsman no posfácio de sua tradução dos Posthumous Papers of a Living Author, "fundem de modo inescrutável o abstrato com o particular, em frases nas quais Esopo encontra Nosferatu e nas quais o físico repentinamente vira meta, o real surreal".

A hiper-realidade musiliana une a experiência palpável e a transcendência utópica do "outro estado" estético-místico - com precisão matemática e intensidade da alma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.