Carol Sachs/Divulgação
Carol Sachs/Divulgação

A senhora e sua fonte da eterna juventude

Aos 75, Karin Rodrigues retorna aos palcos em texto de Edward Albee

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2011 | 00h00

É sempre o mesmo medo, um temor de não conseguir se apropriar da personagem, de não fazer jus à sua verdade. Pouca coisa muda no teatro, ensina Karin Rodrigues. Não importa quantos anos se tenha, ela ressalta, nem quanta experiência. "É o lugar onde as idades desaparecem." Aos 75 anos, a atriz demonstra que ainda conserva seus laivos de ansiedade juvenil. E, sentada em seu camarim, fala sobre como será subir ao palco em São Paulo de novo. A primeira vez desde a morte do marido, Paulo Autran, em 2007.

Os sinais de Autran, aliás, ainda estão por toda parte. Ele aparece no porta-retratos, colocado bem diante do espelho. Na toalha de rosto, que traz uma imagem sua estampada e fica no espaldar da cadeira. Na conversa. Evocado sempre, aqui e ali, enquanto ela repassa as cinco décadas de carreira na televisão, no cinema e no teatro.

Nesse meio tempo, os dois fizeram muita coisa juntos. Peças de enorme sucesso, como Pato com Laranja. Textos de fôlego, como O Rei Lear, de Shakespeare. Mas é sozinha que ela agora se prepara para desbravar o mundo nada amistoso delineado por Edward Albee, em A Senhora de Dubuque.

Na montagem, que estreia sábado, ela tem a missão de encarnar o papel-título: uma mulher misteriosa que, pretensamente, chega para visitar a filha à beira da morte. Sem ofertar muitas pistas, o dramaturgo norte-americano mantém o espectador em constante estado de suspeição. Sem nunca assegurar-lhe qual seria a verdadeira identidade da senhora de modos estranhos.        

 

 

 

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Em seus diálogos, a tal dama que veio de Dubuque - uma cidadezinha desconhecida do interior dos EUA - parece falar sobre tudo. Discorre sobre si mesma, o passado e a morte, ainda que não revele muita coisa. Paira um pouco como enigma. Mais ou menos como a atriz, que lança palavras como iscas para aquilo que hesita em revelar, que ainda menina descobriu no teatro um jeito de estar só. E também de escapar da solidão.

Nos anos 1940, tempo de Segunda Guerra, essa filha de alemães que imigraram para o Brasil não tinha muitas companhias na escola. "As crianças não falavam comigo. Roubavam meu lanche. Me trancavam no banheiro. Tive que aprender a brincar sozinha." Refugiou-se em um mundo próprio. Fingia estar em um ônibus, um restaurante, um hotel. Lembra que gostava de regar a grama e depois ficar nadando sobre ela. Como se fosse o mar. "E teatro é o quê? É isso."

Mas Karin não ficou só no teatro. No cinema, foi musa de Walter Hugo Khouri, que encontrou no seu tipo europeu a protagonista para o bergmaniano As Filhas do Fogo (1978). E alcançou o sucesso na televisão com A Deusa Vencida, novela da antiga TV Excelsior, em que vivia a indecifrável Hortênsia. "Até hoje tem gente que lembra e vem falar comigo. Geralmente quem já tem todos os cabelos brancos e está bem curvadinho."

Era um tempo em que as novelas ficavam quase dois anos no ar. E foi precisamente nessa época que ela adotaria para sempre o sobrenome herdado do marido: Rodrigues. Mesmo após separar-se percebeu que não tinha mais como recuperar o acento germânico de seu nome de solteira: Karin Fehrmann. "Já era conhecida. Não dava mais para voltar. Aí, falei para ele: "Desculpe, não vou levar os tapetes. Mas vou ficar com o nome.""

Aos 32 anos, acumulava dois filhos e dois divórcios. Era 1968. Ela, porém, retoma os episódios como se o conservadorismo do Brasil daquela época fosse um dado distante, quase inexistente. "Minha mãe também era separada. Tinha uma cabeça aberta, nasceu em Berlim. Meu pai fugiu com a Revolução Russa de São Petersburgo. Tive uma educação livre. Sem tabus. Não foi nenhuma tragédia se separar. A gente tem que ser feliz de novo."

Sem validade. A atriz, que começou como modelo e logo ganhou as páginas da revista Manchete, conta que os papéis rareiam conforma a idade avança. "Há muitas personagens quando você pode interpretar namoradas, amantes. Agora, é mais difícil. Mas ainda é a melhor profissão do mundo." Por quê? "Porque é uma profissão que não tem data de validade. Eu não tenho data de validade."

No cinema, fez cerca de dez longas. Foi dirigida por Antunes Filho em seu único filme, Em Compasso de Espera (1969). Esteve em Os Carrascos Estão Entre Nós (1968) e, depois de quase dez anos afastada dos sets, retornou em Felicidade É... (1995).

Estrela das primeiras telenovelas brasileiras, como Anjo Marcado (1966) e A Rainha Louca (1967), explica que hoje tem poucas chances de voltar às telas. Apareceu recentemente em 9 mm, série do canal Fox, mas diz que, sem plásticas, é difícil encarar as câmeras. "Tomo um susto quando me vejo na televisão. Fico velhíssima. O que eu poderia interpretar? Acho que só se for uma bisavó."

Há quase 15 anos, largou os dois maços diários de cigarros para conservar a saúde e a voz. "Se você fuma, tem um tom só. Agora, sou capaz de modular a voz, passar uma intenção. É uma ferramenta de trabalho." Mas não consente em ceder às cirurgias estéticas por alguma espécie de convicção. "Hoje, parece que envelhecer é feio, que você tem que dar um jeito nisso. Não é preconceito, mas não gostaria de mudar minha fisionomia", diz. "Não toleraria a ideia de ter um rosto sem passado."

QUEM É

KARIN RODRIGUES

ATRIZ DE TV E TEATRO

Nascida em São Paulo, em 1936, começou a carreira como modelo fotográfica. Estreou na televisão na primeira versão de A Deusa Vencida, novela de Ivani Ribeiro exibida na TV Excelsior, em 1965. No teatro, passou pelo Oficina e foi dirigida por Antunes Filho. Conheceu Paulo Autran em 1972 e, a partir daí, trabalhou constantemente ao lado do marido.

 

 

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