Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

A seleta do produtor

Pesquisa e discos com Otto, Racionais e Planet Hemp credenciam Ganjaman

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2011 | 00h00

Aos 32 anos, Ganjaman ainda se veste como um skatista, com as roupas largas e os bonés que identificam a tribo. Embora não ande mais sobre a tábua de madeira com quatro rodinhas, ele atribui ao skate e ao convívio com amigos na época de adolescente um dos pontos determinantes em sua vida para expandir horizontes musicais.

Em uma divisão nada maniqueísta, do pai herdou o gosto pelo rock - e por equipamentos de áudio de qualidade - e da mãe, o interesse por música brasileira, como Milton Nascimento, Elis Regina e Jorge Ben. Pequeno, conhecia uma barbaridade de músicas e com apenas 7 anos vibrava em Iron Maiden, julgando-se um "minimetaleiro".

Depois disso, veio a adolescência, com forte referência dos amigos. "A gente, com o skate, tinha essa coisa do punk, com uma pesquisa grande. Conheci Beastie Boys, que foi uma abertura de leque, e comecei a ir atrás de uma série de outras coisas, como Sly & The Family Stone, Parliament-Funkadelic, conheci Public Enemy por causa do Anthrax... O skate foi um dos grandes responsáveis por eu começar a me interessar por rap, hip-hop e outros gêneros", diz Daniel Sanches Takara, que ganhou o apelido aos 16 anos, com o vinil de um de seus "papas", Lee Perry. "A primeira música do lado A chamava-se Daniel e a do lado B, The Ganja Man. Acabou pegando".

Áudio  som 

Ouça trecho da inédita Não Existe Amor em SP, de Criolo

Na mesma esteira, ainda nos anos 1990, as epifanias musicais se apresentaram para o moleque com o primeiro disco dos Racionais MC"s, M.T. Bronks, Thaíde, Pop Will Eat Itself, Depeche Mode, Nine Inch Nails, Ministry e uma série de descobertas que seriam amplificadas com idas de Ganjaman ao exterior.

Pavimentando caminho. Em 1997, ao lado do pai, Ganjaman abriu o estúdio El Rocha, onde deu os primeiros passos como produtor. Dali não demoraria muito para, a convite do craque Apollo 9, começar a tocar e a fazer a direção musical da banda do cantor, compositor e percussionista Otto, caindo em turnê na divulgação do primeiro disco do pernambucano, Samba pra Burro, em importantes festivais, como o Central Park Summerstage, em Nova York.

No começo de 2000, em contato com o produtor David Corcos, o guitarrista Rafael e o DJ Zé Gonzales, gravou, compôs e ajudou a finalizar o último álbum de estúdio do Planet Hemp, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, saindo em excursão com o grupo. "Quando a gente lançou, já saiu como disco de ouro, 100 mil cópias. Naquela época, já eram os últimos suspiros da indústria fonográfica da forma que se conhecia. Hoje você vê artistas grandes, ícones da música brasileira, vendendo 20 mil cópias. Eu já produzi discos para majors e sei que a forma de se produzir música mudou, alguns se beneficiaram, outros se deram bem mal", diz Ganjaman.

Dali em diante, ele seguiu colecionando trabalhos importantes, produzindo o disco O Rap É Compromisso, de Sabotage (ao lado de Zé Gonzales), gravando e assinando a produção técnica de Nada Como Um Dia Após o Outro Dia, dos Racionais, seis faixas do disco homônimo da Nação Zumbi, e Guerreiro e Guerreira, de Helião e Negra Li.

Além de tudo isso, desde os 15 anos organizando eventos na noite paulistana, na época com as mínimas condições de estrutura - o que rendeu muita experiência para que Ganjaman pudesse hoje comemorar quase seis anos como responsável pela festa Seleta Coletiva. Ali, ele se apresenta com o Instituto, criado em 2001 pela parceria com Rica Amabis e Tejo. Foi com eles que o produtor teve também a oportunidade de rodar a Europa em renomados festivais, como Sonar, em Barcelona, e Roskilde, na Dinamarca, e ter acesso a discos que jamais encontraria em sebos brasileiros.

"A primeira vez que fui para a Europa, gastei US$ 1.500 em discos. Antes de ir, pesquisava quais eram as lojas legais e fazia uma via-sacra por elas."

A soma desses contatos com artistas de diferentes vertentes musicais com essa peregrinação por lojas de discos (hoje Ganjaman tem mais de 3 mil vinis, indo de raridades de Lee Perry, passando por Funkadelic, e chegando a Serge Gainsbourg) fez com que ele abrisse a cabeça e se tornasse uma espécie de camaleão, no melhor sentido da palavra, trabalhando com nomes com os quais mais se identifica na cena independente nacional.

SELETA COLETIVA

Studio SP.

Rua Augusta, 591, tel. 3129-7040. 1 h. R$ 25 e R$ 15 (lista)

A INVASÃO DO SAGAZ HOMEM FUMAÇA

Planet Hemp.

Em 2000, turnê com a banda pelo Brasil, Japão e pelos Estados Unidos

SAMBA PRA BURRO

Otto.

A convite de Apollo 9, direção musical da banda do cantor e compositor pernambucano

NADA COMO UM DIA APÓS O OUTRO DIA

Racionais MC's.

Até 2002, gravação e produção técnica do maior grupo de rap do País

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