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A segunda vinda

Entre as pessoas que cercavam o padre Alonso, metade não tinha dúvidas de que a profecia bíblica se cumpria, mesmo numa cidadezinha de nada como a delas.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2020 | 03h00

O padre Alonso saiu quase correndo de dentro da igreja. Agitadíssimo. Dizendo:

– Ele vem aí! Ele vem aí!

Juntou gente em volta do padre na praça em frente à única igreja da cidadezinha onde Alonso era o único padre. Tentaram acalmá-lo. O padre tinha quase 90 anos. Não podia se agitar daquela maneira. 

– Quem é que vem aí, padre?

– Jesus Cristo.

As pessoas se entreolharam. Jesus Cristo?!

– Está na Bíblia – disse o padre, ainda ofegante. – A segunda vinda de Cristo. 

– Mas Cristo vai voltar logo pra aqui?

– Chega na sexta-feira. Estive conversando com o pai dele, que me pediu para recebê-lo.

– O pai dele é...

– Deus. Me disse que Jesus é uma pessoa muito simples e não quer nenhuma festa. Mas vamos ter que decorar a igreja. Pelo menos botar umas flores...

– Jesus vai chegar na nossa igrejinha? Nesta nossa cidadezinha de nada? Tinha que ser recebido pelo papa, no Vaticano!

– Foi o que eu disse pro pai dele, mas parece que Jesus quer, inclusive, evitar aglomerações, por causa do vírus. E quer distância do Vaticano, que considera um desperdício para pura ostentação de riqueza. 

Entre as pessoas que cercavam o padre Alonso, metade não tinha dúvidas de que a profecia bíblica se cumpria, mesmo numa cidadezinha de nada como a delas, que entraria para a História, e metade não tinha dúvidas de que o padre Alonso estava delirando. Mas todas, por via das dúvidas, passaram a planejar a segunda visita de Jesus. 

Algum tipo de solenidade teria que haver, mesmo contra a vontade de Jesus. Deveriam avisar o prefeito e demais autoridades municipais que a cidade recebia aquele visitante ilustre ou evitar a politização do fato? Jesus aceitaria fazer uma sessão de autógrafos? Detalhes práticos precisavam ser decididos. Por exemplo: o que comeria Jesus? A sopa de capelete da Nonna Sofia como preâmbulo a massas e galetos infindáveis, famosos em toda a região, agradariam a Jesus ou ele insistiria na sua dieta de pão ázimo e peixe salgado? 

E o maior problema de todos: o alojamento. Onde colocariam Jesus para dormir, já que a cidadezinha não tinha hotel? Alguém lembrou o motel “Happy Hour” que ficava na entrada da cidade, mas todos acharam que não ficava bem. E o próprio Jesus pediu para não se preocuparem, ele se sentiria à vontade em qualquer manjedoura.

E tudo se resolveu quando o padre Alonso contou que Deus fizera contato com ele para dizer que a segunda vinda do Cristo fora cancelada. Tinham concluído que não era a hora. 

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