A SEGUNDA CHANCE PARA PERSONAGEM E DIRETOR

Denzel Washington diz que viu muitos vídeos no YouTube sobre alcoólicos para compor o personagem de O Voo. Ele acrescenta que o diretor Robert Zemeckis tinha uma concepção muito precisa do personagem, e do filme como um todo, mas que eles não conversavam muito, porque um ator deve atuar e excesso de conversa pode paralisá-lo em cena. O filme é bom, o melhor de Zemeckis em anos. A interpretação de Denzel é poderosa - a sua melhor, também, desde o Oscar que recebeu por Dia de Treinamento, de Antoine Fuqua, em 2001, sem que isso signifique que ele não tenha estado bem em praticamente todos os filmes que fez na última década.

O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2013 | 02h08

O filme refere-se a um voo particular, mas na verdade é sobre esse voo que o piloto precisa tentar para reassumir o controle da própria vida. Como piloto, Whip/Denzel é um herói. Arrisca uma manobra perigosa que derruba todos os demais pilotos nos simuladores de voo e consegue aterrissar um avião que se desmancha. Whip salva dezenas de vidas, mas algumas se perdem e o acidente vira objeto de uma investigação federal - que descobre que ele poderia estar, como efetivamente estava, bêbado e drogado naquela manhã.

Naquela e em todas as outras de sua vida destroçada. Monta-se o circo para livrar a cara de Whip - e a do sindicato, a da companhia aérea. Só que, para se safar, ele precisa jogar a culpa em alguém, quando fica provado que um dos tripulantes consumiu álcool dentro do avião. É o dilema de Whip, é o que fará toda a diferença em O Voo. A segunda chance vem por meio de comprometimento, de responsabilidade e expiação da culpa. O juiz diz que ele fraudou a confiança do público, mas, na verdade, O Voo conta a história da trajetória de um homem que se reencontra consigo mesmo. O reencontro interior passa pela tumultuada relação com o filho, e a ex-mulher.

Como um homem se reconstrói internamente? Como um diretor se reencontra consigo mesmo, após tantas experiências equivocadas? Errar é humano, na arte como na vida. Retomar o caminho é mais difícil, mas gratificante. A dramaturgia é tradicional, mas é tudo consistente e o elenco de coadjuvantes contribui para a forca do relato, com direito a dez minutos inesquecíveis de Melissa Leo. Só para efeito de comparação, houve outro filme sobre um homem que sofreu um acidente aéreo. Em Medo de Viver, de Peter Weir, Jeff Bridges inicia uma viagem louca. Pensa que é indestrutível, sente-se o próprio Deus e o diretor, rossellinianamente, discute a relação entre o humano e o divino. A via de O Voo é diferente, mas não totalmente.

Na reunião dos alcoólicos anônimos, quando as pessoas assumem suas misérias, Whip não quer ser comparado a elas. Ele, não. Precisa descer ao fundo do poço, precisa se aceitar para, então, voar.

Crítica: Luiz Carlos Merten

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