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A segunda chance

Ser avô e avó é um doutorado, uma oportunidade de reescrever o rascunho da juventude

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2017 | 02h00

Os nomes não constam nas Bíblias oficiais. Graças aos chamados apócrifos, livros que não fazem parte da lista canônica, denominamos os avós de Jesus de Joaquim e Ana.

Os pais de Maria eram idosos quando a conceberam. Essa é uma tradição narrativa que pode ser verificada em Sara e Isabel, mães maduras de Isaac e João Batista. A ausência de descendentes é um mal gigantesco para as famílias bíblicas. Assim, uma mulher fora da idade fértil e que concebe um rebento tardio é, a rigor, uma mostra imensa do favor divino. Dentre as dádivas que Deus promete ao patriarca Abraão, a questão de filhos tem destaque poético: o Altíssimo o manda contemplar as estrelas do céu e diz que assim seria sua descendência (Gn 15,5). 

São Joaquim e Sant’Ana esperaram em prolongada agonia da esterilidade. Finalmente, na data tradicional de 8 de setembro, geraram uma menina que seria conhecida como Maria. Hoje, 26 de julho, dia de São Joaquim e Sant’Ana, é o Dia dos Avós. 

Curioso que não existem muitos registros de imaginação artística de Jesus com os avós. Há cenas frequentes dele com o pai na carpintaria, com a mãe e, finalmente, com a Sagrada Família toda. José foi reabilitado a partir da Idade Moderna e assumiu a palavra que nos fazia rir na escola ao ler: pai putativo do Salvador. O putativo era lido no colégio entre risadinhas nervosas. Uma vez, a professora pediu que substituíssemos por adotivo, um bom e honesto sinônimo. O colega que leu o texto confundiu-se e fez a mudança no meio, produzindo pai putadotivo, neologismo involuntário e ainda mais risível.

Sant’Ana mestra é uma imagem clássica do período colonial. Está sentada, quase uma catedrática, e ensina a jovem Maria a ler as escrituras. Outros apócrifos criam a tradição de que Maria foi entregue para educação no templo, o que explicaria a condição excepcionalíssima de uma mulher pobre alfabetizada no século inicial da nossa era. 

A padroeira das avós e o padroeiro dos avôs não são exibidos com o neto sagrado, mas com a filha famosa. Seria lícito (ainda que imaginativo) supor que Maria tivesse convidado os pais, se vivos, a visitarem ou morarem no Egito. Nossa capacidade criativa chegou a inventar uma santa serva da sagrada família, Santa Sara Kali, importante na cultura roma. Jesus teria crescido com a benéfica influência de um pai artesão da madeira, de uma mãe especialíssima e dois bondosos avós. 

Estou na idade de ter muitos amigos e colegas virando avós. Quando eu tinha 30, ia a maternidades e batizados. Passando o cabo austral do meu cinquentenário, recebo a notícia frequente de colegas avoengos. Quase todas e quase todos descrevem virar avó ou avô como um oportunidade extraordinária. Ouço que é uma paternidade sem responsabilidade formal, maternidade aprimorada pela tranquilidade dos anos: as expressões variam muito. Suponho que fica esvanecida a ideia de que devo incutir caráter ou estabelecer códigos normativos com o neto, pois essa já seria a função dos pais. Ao avô ou avó, caberia mais “estragá-los” com mimos inefáveis. Se o esforço resultar do processo uma criança mimada e birrenta, óbvio, a culpa será dos pais. Ninguém jamais apontou o dedo para avós na genética do enfant gâté. Avós são seres especiais porque, exatamente, abriram mão do projeto educativo-normativo e decidiram abraçar a máxima agostiniana: ama e faze o que quiseres!

A casa dos pais é a casa dos legumes e dos sucos. A dos avós é a casa do sorvete e do chocolate. Os pais moram em um país definido com leis; os avós mudaram-se para uma ilha tropical e sem governo. Os pais admoestam, instruem, instam e vociferam. Os avós acatam e não cumprem; fazem ouvidos de mercador. 

Victor Hugo, depois da tragédia de perder o filho e a nora, criou dois netos. Escreveu poemas para eles e os publicou com o título A Arte de Ser Avô (1877). Sobre a neta Jeanne, rememora quando a tirou de um castigo com um pote de doces. Rachel de Queiroz, em sua Arte de Ser Avó (1964), confirma a vocação para a indulgência: a avó, diz, “leva a passear, não ralha nunca. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica”.

Talvez, os protegidos de Joaquim e Ana já tenham notado que, tendo sido educados com regras duríssimas, elas não são a garantia da felicidade e do sucesso. Pode ser que imaginem ter pouco tempo pela frente e não estejam dispostos ao custo emocional dos limites. Adequado supor que se sintam um pouco culpados pela opressão sobre os pais dos netos. Talvez, enfim, a experiência os tenha afastado de molduras estreitas. Avós são um calmo estuário para se refugiar das águas rápidas e mais jovens das marés paternas e maternas. Ser avô e ser avó é uma segunda chance, um doutorado, uma oportunidade de reescrever o rascunho da juventude. 

Não conheci meu avô paterno, Carlos Karnal. Sua esposa, Edyth Hacker Karnal (sempre leio esse sobrenome do meio com certo humor) enviuvou cedo e lutou para criar dois filhos. Era uma mulher bonita de olhos azuis como uma safira fria. Seu arado biográfico pouco sulcou nossas almas. 

Meu avô materno, Ervin Schlusen, era uma alemão alto e com forte sotaque. Era um camponês no sentido estrito da palavra, com certos hábitos de autoridade que remetem ao filme A Fita Branca (2009, Michael Haneke).

Minha avó materna, Maria, foi muito presente na nossa infância e, de longe, tornara-se melhor avó do que fora mãe. Hábil ao fazer cucas, habitava um universo de práticas mágicas e superstições. Passamos muitas noites ouvindo suas histórias inverossímeis de fantasmas que despencavam em partes de figueiras nas estradas. Sua consciência morreu alguns anos antes do corpo. Cérebro, coração, articulações e bexiga são dramas de avós.

 

Feliz dia para os avós de todo o mundo. É uma segunda chance, para eles e para nós, os netos. Aproveite hoje, e se ainda tiver avós, ligue! Acima de tudo, visite-os. Com sorte, você chegará, um dia, onde eles estão. Boa semana para todos! 

 

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