A sedução pelo consumo

A sedução pelo consumo

Ausência, do alemão Franz Xaver Kroetz, discute a influência da mídia na sociedade

Beth Néspoli, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

O termo "referência" costuma vir associado à capacidade de interferência cultural na sociedade, de realização de ações ou obras ? arquitetônicas, literárias, políticas ? em trajetórias sedimentadas ao longo dos anos com esforço, dedicação e talento. Mas o que ocorre quando o "modelo" passa a ser simplesmente o "rico" ou "famoso", neste último caso, pessoas catapultadas à categoria de celebridade sem um ato ou pensamento fora do senso comum? Qual o efeito dessa mudança de paradigma sobre milhares de trabalhadores anônimos?

Pois os valores da sociedade de consumo e seus reflexos no comportamento das chamadas "pessoas comuns" é tema da obra do dramaturgo alemão Franz Xaver Kroetz, que na década de 80 foi considerado o autor vivo com mais textos encenados no mundo. Ainda pouco conhecido no Brasil, seu texto Oberösterreich (Alta Áustria em tradução literal) foi levado ao palco em 1990, sob direção de Antonio Araújo (leia ao lado), e agora ganha outra encenação, dirigida por Leonardo Antunes, sob o título de Ausência, que estreia hoje, às 20 horas, no Espaço dos Satyros 1 (Praça Franklin Roosevelt, 214).

Militante. Nascido em Munique em 1946, Kroetz trabalhou como chofer, enfermeiro, jornaleiro e cortador de bananas antes de ver encenado com sucesso seu primeiro texto, Trabalho a Domicílio. Foi também militante do partido comunista e do partido verde, trajetória que pode ajudar a compreender a abordagem crítica da sociedade em sua obra teatral. Ele é também diretor e ator, conhecido em seu país pela série televisiva Kir Royal.

Ausência coloca em cena um casal de trabalhadores de uma loja de departamentos, Ana e Carlos, interpretados por Fernanda Castello Branco e Gabriel Bodstein, ela vendedora, ele motorista do caminhão de entregas. Na primeira cena, ambos diante da televisão e, ao desligar o aparelho, começam a imaginar a vida dos artistas que acabaram de ver atuando, o restaurante fino onde supostamente devem estar comendo, as roupas, o tratamento que lhes é dado pelo fato de serem quem são.

"Eles não são totalmente pobres, têm carro, adquirem eletrodomésticos por meio de crediários. Mas sonham o tempo todo com uma vida de consumo muito além do que podem alcançar", observa Antunes. Nada contra a ambição e o sonho, óbvio. O problema são os desejos descolados das vivências, comprados no mercado virtual que acena com a felicidade, mas frustra o acesso. Uma crise que se acentua, nesse casal, quando ela fica grávida e o filho passa a ser contabilizado como mais uma despesa, tão onerosa ou mais que a prestação da TV, sem prazo para terminar e de retorno incerto.

Ambivalência. Em sua montagem Antonio Araujo criou toda uma ambiência sonora e cenográfica com ruídos de eletrodomésticos em funcionamento. Leonardo preferiu enfatizar o atravessamento desses personagens pela mídia tomando como ponto de partida a primeira cena. "Não foi por acaso que o autor os colocou diante da TV. Eles a desligam, mas no espetáculo as imagens da telinha, com seus sonhos prontos para consumo, vão invadindo por conta própria o ambiente." O grupo fez uma edição de imagens que vão desde comerciais e filmes até novelas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.