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Ignácio de Loyola Brandão
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A São Pedro tornou-se icônica

Com gente pelo ladrão, foi montado o palco para a poesia antirracista da Deusa Poetisa

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 03h00

Cheguei adiantado à Mercearia São Pedro, atendendo a convocação do Marcelino Freire, um promoter de causas descoladas e boas. Marquinhos Benuthe, que é o dono junto com o irmão Pedro se aproximou:

“Vai de caipirosca?”.

Como logo enfrentaria a mesa que abriu o ciclo Conversa na Merça, mudei o roteiro:

“Não, um Cuba-libre com Havana Clube”.

(Desde a juventude, sempre pedimos um Cuba-libre. Acontece que a bebida é feminina. O certo seria uma Cuba-libre?)

“Com que tipo de Coca?”

Agora é assim. Por toda parte. Você pede um café e o garçom quer saber se é descafeinado, expresso normal, carioca, estretto (acertei?), longo, curto, gourmet, marroquino. Queremos água e é preciso dizer com gás, sem, da torneira, Prata, Lindoya, Caxambu, Pedra Salgada, Perrier, San Pellegrino ou do Rio Guandu do Rio de Janeiro. Com refrigerantes é necessário esclarecer se é normal, zero, sem açúcar, sabor original. Pedida a Cuba-libre, muitas vezes é comum nos consultarem com uma heresia: pode ser com Pepsi? Meu Deus! Com Pepsi? Veio-me a lembrança de Havana, em 1978, quando pedi Cuba-libre e o garçom retrucou indignado: o senhor quer dizer Ron e Cola? Gafe minha. Aceitei Ron e Cola e vi que o refrigerante era uma imitação longínqua da bebida “imperialista”, como diziam lá. Quanta água já correu depois daquilo, nossa!

A (no feminino, vejam só) Cuba-libre veio, olhamos em torno, não havia lugar nem para o fantasma Gasparzinho, que não ocupa espaço. Assim é com a Mercearia e seus habituais. Não tem mesa? Não faz mal, fica-se de pé na calçada, na rua, suba na árvore, se arranje. Fui conduzido à mesa de Ronaldo Bressane, que sempre leio, mas nunca tínhamos nos encontrado. Duas gerações se entendendo. 

Pena que o Alê Youssef não tenha ido. Porque na tarde de sábado passado, aniversário de nossa cidade, ali se encontraram várias gerações. E houve muita conversa, coisa difícil neste Brasil marcado pelo ódio, acirramento e pega pra capar. Afinal, vivemos tempos em que se prega a discussão não com adversários, mas com “inimigos”. Uma das marcas da Mercearia é a de conversas boas, às vezes fortes, mas sem aquele apelo grosseiro, cafajeste: “Cadê a sua mãe?”. E olhem que havia muitos da direita ali dentro, resmungando um tanto, mas tranquilos. 

Fui rodeado por questionamentos. Um deles: “Qual é? Por que a Academia Brasileira? Logo você?”. Ouviram meus argumentos, me abraçaram ou se afastaram. 

Sábado passado, com gente pelo ladrão, montou-se um palco e ali tivemos a poesia antirracista da Deusa Poetisa, a palavra equilibrada e contundente de Laerte, bom no desenho, na fala e na ousadia, na boa articulação de Adriana Couto que tem muito a dizer. Quanto a mim, dei breves recados sobre racismo e diversidade. Contei, entre outras, de minha descoberta da diversidade e do preconceito, já que aos 7 anos, uma catequista nos proibiu de fazer amizade com um garoto, porque a mãe dela era p... Nem deixaram o menino fazer primeira comunhão.

Outra interdição: sendo católico, não devia alimentar amizade com protestantes e também não podia entrar na igreja deles na Rua Quatro, em Araraquara. Mas uma tarde entrei. Afinal, era tentador, montavam uma árvore de Natal que me pareceu iluminada por mil lâmpadas. Pecado. Carreguei a culpa por décadas. Nunca esqueço também que naquele tempo diziam: para cima dos trilhos do trem – que dividiam a cidade ao meio – é região da “negrada”. O que significava? Uma vizinha explicou: não vá se misturar. Perguntei: estão doentes?

Diversidade? Ora, somos todos diversos. Nós, os que pensamos “diferente”. Os negros, os desempregados, os aposentados, os idosos, os analfabetos, os moradores de rua, os gays, as lésbicas, as trans, os que pensam e têm cultura, os deficientes físicos, os sem-teto, os que recebem salário mínimo, os que não acreditam que a Terra é plana, sabem que houve uma ditadura, o nazismo foi de direita e os que sabem que os pobres não incendeiam as matas. Que espanto foi para mim saber que o DiCaprio está na miséria e, por isso, põe fogo nas florestas.

Saí da Mercearia no começo da noite, lembrando que ela vem se tornando um lugar icônico na cultura. Ela é frequentada pelos jovens autores, é ponto de encontro de jornalistas, intelectuais, professores, músicos, designers, tudo. Lugar de reunião, de comer e beber, paquerar, de não fazer nada. Democrata, aceita todos. Vi dois ateus, meus conhecidos. Ali é lugar ícone, desarrumado, afetuoso, charmoso, que pode no futuro ficar na história desta cidade, da mesma maneira que as gerações cariocas de Tom, Vinicius, Chico, Lyra, Baden, Miúcha e outros tornaram célebres o Garota de Ipanema (antigo Bar Veloso), o Beco das Garrafas, o Amarelinho, o Au Bon Gourmet os restaurantes Antonio’s e Degraus. 

Saí depois da sete da noite, quando bandejões circularam com pastéis imensos, uma tradição. Saí porque minha neta Stella esperava na calçada e queria um pastel de queijo. Levei. Aquele pastel é um jantar.

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