A São Paulo de 1971 nas câmeras de Giorgetti

Cineasta volta a usar a cidade comocenário de um filme, Corda Bamba

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

Noite de quarta-feira, dia 21, último dia das filmagens de Corda Bamba, novo longa-metragem do cineasta paulistano Ugo Giorgetti. O cenário era o restaurante Da Giovanni, na estreita Rua Basílio da Gama, cravada na região central de São Paulo. Giorgetti, a assistente de direção Kity Féo, o diretor de fotografia Walter Carvalho, os atores Emílio de Mello, José Geraldo e Carlos Meceni, gente da produção e mais 20 figurantes faziam verdadeiros malabarismos para ocuparem, ao mesmo tempo, a pequena cantina.

Através da máquina do tempo instituída por cartazes datados e figurinos de época, o set foi transportado para a década de 70. Mais precisamente, na cidade de São Paulo do ano de 1971. Um aparelho de efeitos especiais borrifava incessantemente fumaça salão adentro, reproduzindo o clima de uma época em que a Lei Antifumo, hoje obrigatória em estabelecimentos fechados, era algo impensável.

E como ali dentro estavam em vigor os anos 1970, acender cigarros era totalmente permitido. E bem-vindo. "É para criar uma ambientação mais esfumaçada, dar um ar mais difuso para as coisas, para a cena", explicou Ugo Giorgetti, antes de rodar uma passagem representativa da trama, que traduz um pouco do espírito que ele quer imprimir em seu novo filme.

Nela, o diretor teatral João Pedro (Emílio de Mello) pede ajuda para o irmão Getúlio (José Geraldo), para esconder dois perseguidos políticos em plena ditadura militar. João sugere ao irmão que o refúgio seja a casa do avô (Walmor Chagas) de sua namorada, um general reformado e, portanto, acima de qualquer suspeita.

Temendo represálias aos envolvidos, caso o plano fosse descoberto, Getúlio mostra-se resistente a essa ideia. Em meio à tensa conversa, um conhecido dos irmãos, vivido por Meceni, senta à mesa deles e alerta para uma ameaça de bomba, feita por carta anônima e endereçada ao Teatro Oficina. Para João, no entanto, o destino dos dois fugitivos é mais importante naquele momento.

"Este não é mais um filme sobre a ditadura. Isso já foi feito em muitas outras produções. É sobre personagens, pessoas que viviam e eram obrigadas a se mover naquele momento histórico. Falo do período através dessas pessoas", explicou Giorgetti, diretor de filmes como Sábado, Boleiros 1 e 2 e o recente Solo. "Assim como havia quem estivesse na luta armada, outras pessoas guardam lembranças ligadas a uma cultura rica. Muita gente escrevendo, fazendo música popular extraordinária. O teatro tinha grande amplitude."

Para ele, são personagens que fazem suas escolhas e determinam seu grau de envolvimento com o cenário político - quando optam por ter algum tipo de envolvimento. Tal e qual foi na vida real. "É um filme em cima dessas escolhas", emendou.

Perseguidos. No caso do diretor João Pedro, ele, de repente, se vê envolvido. Sua relação com os problemas da classe artística acaba por colocá-lo na posição daquele que pode dar um jeito na situação. E parte, desesperadamente, em busca de um refúgio insuspeito para os perseguidos. "Acontecia de se precisar ocultar pessoas por alguns dias. Mas era um risco grande", lembrou o cineasta. "Em 1971, eu tinha 29 anos. Minhas recordações desse período são ótimas."

Rodado em pouco mais de um mês, praticamente todo em 16 mm e alguma coisa em 35 mm, Corda Bamba utiliza diferentes locações da cidade, incluindo os teatros João Caetano, no centro, e Arthur Azevedo, na Mooca. No entanto, o fato de a Pauliceia ser recorrente em seus filmes não é por uma questão de paixão pela cidade, esclareceu Giorgetti. "São Paulo é horrível, está cada vez pior. Mas não nego a importância dela. As coisas passam por aqui. E como eu nasci e sempre vivi aqui, sei do que estou falando", disse.

De baixo orçamento, o longa-metragem não deve ultrapassar a marca de R$ 2,5 milhões, entre realização e finalização. Entre seus apoiadores, estão CSN, MRS, Petrobrás, Governo do Estado e Prefeitura de São Paulo, além de uma providencial rede de amigos disposta a ajudar sempre. A coprodução é da Bossa Nova Films.

Naquela mesma noite de quarta, a previsão era de que as filmagens adentrassem a madrugada, até 4 da manhã. Mas o trabalho fluiu tão bem, que a claquete foi guardada com 1h30 de antecedência. Toda a equipe, então, aproveitou o tempo de sobra para confraternizar. "Foi um dos filmes que mais tive prazer em fazer."

O filme Corda Bamba deve estrear no primeiro semestre de 2011.

OUTRAS VISÕES DA SELVA DE PEDRA

Carlos Reichenbach

Origem: Nasceu em Porto Alegre, mas veio para São Paulo logo na infância

Seu cinema e a cidade: Filmou Anjos do Arrabalde (1987), que conta a história de três professoras na periferia paulistana; Garotas do ABC (2003), sobre um grupo de operárias de São Bernardo; e o mais recente Falsa Loura (2007), também sobre a vida de uma bela operária

Tata Amaral

Origem: Nascida em São Paulo, estudou no Colégio Equipe e frequentou aulas do curso de cinema na ECA/USP

Seu cinema e a cidade: Ela rodou o impactante Um Céu de Estrelas (1997) numa casa na Mooca, sobre uma cabeleireira do bairro que vence um concurso; e Antônia (2006), na Vila Brasilândia, que rendeu também um bem-sucedido seriado da TV Globo

Beto Brant

Origem: Nasceu em Jundiaí, interior paulista, mas se mudou ainda criança para São Paulo

Seu cinema e a cidade: Formado em cinema pela Faap, em 1987, o cineasta usou a capital paulista como cenário de filmes como Ação Entre Amigos (1998); O Invasor (2001); Crime Delicado (2005); e O Amor Segundo B. Schianberg (2009), em que casal passa 3 semanas dentro de um apartamento em São Paulo

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