A salvação pelo trabalho

Macunaíma foi grande sucesso de público. Um daqueles raros filmes que conseguem agradar tanto à crítica quanto à plateia mais popular. Qual o segredo, Paulo? "Grande Otelo", responde. Os olhos brilham ao falar do amigo, que ficou conhecido com as chanchadas da Atlântida em sua parceria com Oscarito. "O Otelo era fantástico; foi uma audácia chamá-lo para fazer um filme do Cinema Novo. Ele vinha do cinema popular, mas vamos lembrar que já estava com Nelson Pereira dos Santos em Rio Zona Norte, de 1957." Grande Otelo (1915-1993) dava o tom do filme de Joaquim Pedro; e esse tom o levava para o lado da chanchada. Paulo José entende que Macunaíma é um filme com várias camadas de compreensão. "Pode ser visto como reflexão profunda sobre o Brasil, e assistido como comédia popular num cinema do centro da cidade - quando estes ainda existiam." Esse é um segredo que só os grandes mestres detêm - agradar tanto ao erudito mais enjoado quanto ao porteiro do prédio. E, nesse quesito, nenhum deles foi maior do que Federico Fellini.

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2010 | 00h00

Falar em Fellini traz a conversa de volta ao tema do circo. Magia do picadeiro, magia do palco - ambas tão próximas. Essa atração nasceu na infância. Paulo conta que estudou em Bagé no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dos padres salesianos. "O fundador da ordem, São João Bosco, de Torino, usava o teatro como instrumento de edificação para a juventude; eu entrei no colégio, no exame de admissão ao ginásio, e comecei a fazer teatro lá. E nunca mais parei. Minha família apoiava: minha mãe era declamadora e pianista. Ligada às artes." Esse foi o ponto de partida de uma grande carreira, com passagem pelo Teatro Universitário (1955) e Teatro de Equipe (1958), ambos em Porto Alegre. Depois, Paulo buscou o eixo Rio-São Paulo, onde realizou os trabalhos que o fizeram conhecido nacionalmente.

Volta e meia, Paulo retorna à sua terra. "Temos, eu e meu irmão, a fazenda da família, em Lavras, e gosto de passar uns dias por lá; é revigorante", diz. Além disso, gosta de trabalhar no Rio Grande do Sul, em especial com seu amigo, o diretor Jorge Furtado, para o qual fez a narração do mitológico curta-metragem Ilha das Flores (1989), além de ter trabalhado como ator nos longas O Homem Que Copiava (2003) e Saneamento Básico (2007).

Paulo José está há mais de 40 anos na cena artística brasileira e não demonstra qualquer intenção de diminuir o ritmo. Além dos dois filmes ainda inéditos, dirige sua filha Ana Kutner na peça Ana Cristina César - ou Um Navio no Espaço, sobre a poeta carioca que se matou aos 31 anos.

Paulo trabalha, trabalha, trabalha. E não se queixa. Ele tem uma tese: a hiperatividade o ajuda a superar as sequelas do Parkinson: "Fiz uma cirurgia no ano passado, com implante de um marcapasso, que melhorou bastante a minha condição; mas acho que o trabalho é o fundamental: como ele me dá muito prazer, aumenta a quantidade de dopamina no cérebro, e isso contrabalança os efeitos da doença". Que venha mais trabalho, portanto.

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