A sagração do amor de dois mitos da arte

Livro de pesquisadora se baseia em carta de Coco em segredo por 30 anos

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Filme se concentra entre 1913 e 1921 e adota licença poética  

 

Robert Craft e Jocy de Oliveira conheceram Stravinsky quando este já era celebridade, compositor-chave do século 20, dono de imenso prestígio. Craft foi uma espécie de secretário, confidente, porta-voz e regente de suas obras, e conviveu com o russo desde seus 25 anos, em 1948, até a morte do compositor, em 1971; e Jocy foi apresentada a ele em 1960, quando tinha 24 anos, e trabalhou algumas vezes com Stravinsky naquela década, quando morou em Saint Louis, onde seu então marido Eleazar de Carvalho era o maestro titular da orquestra da cidade.

Nenhum deles, portanto, viu Stravinsky no exato momento de sua afirmação na Europa como criador musical decisivo para a modernidade, na esfuziante Paris dos anos 1910/20. Talvez por isso, Craft tenha procurado negar a importância do caso amoroso entre Coco Chanel e Igor nos "crazy twenties" parisienses, quando, em 1976, uma entrevista reveladora da criadora do Chanel n.º 5 realizada em 1946 e mantida em segredo por três décadas deu a entender que ela foi mais importante para o compositor do que até então se imaginava.

O musicólogo Richard Taruskin, emérito especialista em Stravinsky, afirma que "o caso foi bem mais importante para Stravinsky do que para Chanel, que vivia colecionando russos". A pesquisadora norte-americana Mary E. Davis, da Universidade de Case Western Reserve, em Cleveland, prestou atenção na dica e publicou o resultado, em 2007, mesmo ano em que se iniciaram as filmagens de Coco & Igor, ora em cartaz nos cinemas, no livro Classic Chic - Music, Fashion and Modernism (Ed. Universidade da Califórnia). Ali, ela dava nome aos bois. Chamou a atenção para os mesmos adjetivos aplicados a ambos. Tanto a moda concebida por Chanel quanto a música de Stravinsky recebiam, nas críticas especializadas publicadas nos primeiros anos 20, adjetivos comuns ("pureza, clareza, simplicidade, precisão"). Ou seja: depois do escandaloso début da fortemente polirrítmica e inovadora Sagração da Primavera em 1913, composta para os Balés Russos de Diaghilev e Nijinsky, Stravinsky de repente começou a praticar uma música com cheiro de passado, mais acessível ao grande público. Era o neoclassicismo - posição estética que teria então sido parida na cama de Coco Chanel. Enquanto manteve o caso e morou com a família na belíssima mansão de Coco nos arredores de Paris, entre 1920 e 1921, ele compôs Sinfonias para instrumentos de sopro em memória de Claude Debussy e Os Cinco Dedos - os pontapés iniciais de um longo e fértil período neoclássico. Mas Igor também foi decisivo para Coco. Foi durante o affair que ela concebeu e lançou seu maior sucesso, o perfume Chanel n.º 5 (1921).

Centrado nos oito anos entre a primeira apresentação da Sagração, em 1913, e 1921, ano do rompimento, o ótimo filme - com uma formidável sequência inicial da estreia da Sagração, 20 minutos imperdíveis - adota uma licença poética pouco compatível com a realidade histórica: dá a impressão de que o caso se estendeu por todo esse período. É verdade que Coco Chanel esteve na plateia da turbulenta estreia da Sagração; mas eles só foram apresentados em 1920, por um amigo comum, no hotel onde se hospedava o "capo" dos balés russos, Serge Diaghilev. Este atravessava um mau pedaço - manteve a trupe na França desde 1908 como divulgadora oficial das artes russas sustentadas pelo czar; com a Revolução de outubro de 1917 ficou financeiramente órfão. Buscava outros mecenas, quando surgiu a já poderosa estilista. Ela, que gostara da Sagração e colecionava russos, como diz Taruskin, doou uma fortuna - 200.000 francos - para viabilizar a remontagem da Sagração (chegou a desenhar alguns figurinos da coreografia). Montou também o restaurante Le Chateau Basque para o cunhado do compositor.

Segundo Mary Davis, Stravinsky queria mesmo ficar com Coco. Foi ela que o dispensou. Ele, então, trocou Catherine, sua mulher desde 1905, por Vera Sudeikina, com quem permaneceria até o fim da vida. E embarcou na onda neoclássica. A musicóloga norte-americana publicou, também em 2007, um perfil sintético de Erik Satie (Ed. Reaktion, Londres) onde atribui ao autor das Gymnopédies a primazia na adoção da estética neoclássica em música. Stravinsky, que adorava Satie, teria sido apenas o segundo a seguir o neoclassicismo - e não lançador da nova moda, como normalmente é considerado. Em setembro, Mary Davis lança outro livro entrecruzando música & moda, Ballets Russes Style: Diaghilev"s Dancers and Paris Fashion, no qual examina em minúcias como a trupe russa teve papel decisivo na área de formação de gosto e tendências na arte e na música modernas tanto quanto na alta-costura. Ao que parece, nunca houve tanto ti-ti-ti de agulhas, tesouras, batutas e pentagramas como na Paris do início do século passado.

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