A saga da família Mesquita

Júlio de Mesquita Filho teria material de sobra para redigir suas memórias, mas não o fez. Pois agora, por iniciativa do neto, Ruy Mesquita Filho, depositário da história da família, tem agora publicado em livro o acervo precioso das cartas que trocou no exílio (amargo exílio) com sua mulher, d. Marina e outras pessoas da família e de fora, documentando, com pungente fidelidade, o que foi sua experiência de prisão quando da Revolução de 32, seguindo-se a separação prolongada da sua terra e da família, durante o penoso desterro em Portugal, França, Estados Unidos e Argentina.A correspondência ora publicada também é memória, e constitui valioso subsídio para o conhecimento histórico de um dos períodos mais sombrios de nossa história republicana. Mas o que sobreleva nas cartas é o retrato de uma personalidade soberana, desassombrada, de feições grandiosas na generosidade de sua dedicação à causa única de sua vida, o Brasil. E à preservação, lutando contra céus e terra, do principal instrumento de reflexão e ação de que dispunha, o jornal da família, O Estado de S.Paulo, envolvido em trama maliciosa para sair do domínio dos seus fundadores.No perfil de bronze do jornalista Júlio de Mesquita Filho, três eram os traços predominantes:1. O traço político, a fidelidade rigorosa aos princípios e aos valores da doutrina liberal, difundida nos editoriais com um espírito de missão evangélica.2. O traço moral, a coragem e a impassibilidade estoica com que sempre fez frente às ameaças na prisão e às agruras do exílio, sem jamais se dobrar, sem nunca fraquejar ou transigir com o inimigo, mas crescendo em força de caráter quanto mais se avolumava contra ele a pressão da adversidade.3. O traço cultural, manifesto na leitura dos clássicos nacionais e estrangeiros, na preocupação entranhada de promover no País uma revolução mediante a educação, e no entusiasmo, volta e meia registrado, pelos grandes monumentos da cultura européia, edifícios e museus, com seus tesouros artísticos, pintura por exemplo, que o encantavam e arrebatavam em escala surpreendente.Formado no espírito do liberalismo político e econômicoFiel guardião das virtudes republicanas, Júlio de Mesquita Filho pertencia à família dos Cipiões romanos. A casa de Cipião Emiliano, "o superlativo da sanidade quiritária" (Ortega), foi a primeira em Roma na qual se falava grego e em que se liam os textos da literatura e da filosofia helênicas. (Quirites era o cidadão romano de estirpe antiga.)1. O liberalismo de Júlio de Mesquita Filho não se retraía à defesa egoísta dos interesses e dos direitos individuais divorciados da área social. Pelo contrário, sua posição aparece nítida nos textos ora editados: "Estou convencido de que assistiremos a uma paz ditada pelas concepções político-sociais inerentes às organizações ´prado-unionistas´ inglesas, o que significa que a nação futura, sem abrir mão do individualismo, nos moldes a que acima me refiro, e, conseqüentemente, da propriedade privada, não verá a acumulação de capitais em proporções muitas vezes enormes nas mãos de poucos e com grande prejuízo para todos, como atualmente é comum verificar-se. Creio firmemente que a produção de riquezas não seja no futuro , como até aqui, a finalidade suprema das atividades sociais, mas apenas a consecução de um fim: a justiça social, o combate às desigualdades passivas, a possibilidade para todos de realizar um mínimo de bem-estar material compatível com a dignidade humana e um máximo de desenvolvimento moral natural, de acordo com a capacidade de cada um. Não presenciaremos a vitória do socialismo propriamente dito e segundo a concepção marxista, mas o advento de idéias trabalhistas no significado anglo-saxão da expressão" (carta de 14 de fevereiro de 1940, p.136). Proféticas palavras! O pós-guerra não assinalou na Europa a vitória do socialismo marxista e sim a difusão da social-democracia, mais ou menos nos termos referidos por Mesquita. Seu liberalismo nunca foi o duro liberalismo individualista, nem nada de semelhante ao estigmatizado ´neoliberalismo´, e sim um liberalismo algo mitigado no individualismo, com alcance social.Por isso tem toda razão seu filho, Ruy Mesquita, ao testemunhar: "Em outras palavras, as idéias básicas que constituíram o grande alicerce das fantásticas transformações políticas e econômicas que revolucionaram o mundo depois da 2.ª Guerra Mundial, principalmente a partir do final da década de 1960, eram as idéias mestras de Júlio de Mesquita Filho já no começo da década de 1930." (Ruy Mesquita, Apêndice, p. 371).No mesmo texto protesta Ruy contra o equívoco generalizado de classificar seu pai de ´conservador´ e ´reacionário´. Mais do que equívoco involuntário, trata-se de uma infâmia muito bem calculada. Em sua invectiva escreve o filho sobre o pai: "Como considerar conservador um homem que em nenhum momento de sua vida esteve conformado com a ordem política e institucional e com as condições culturais do país que amava acima de todas as coisas? Como chamar de conservador um cidadão brasileiro que, mais do que qualquer outro do seu tempo, lutou para mudar a realidade nacional, tendo como modelo as mais avançadas democracias do seu tempo?"E como entender que o filósofo Jean-Paul Sartre também se deixasse cegar pelo preconceito infamante de estigmatizar Mesquita Filho de maneira tão maldosa e equivocada, quando foi seu hóspede na fazenda da família, em Louveira? Depois do jantar, já na saída, volta-se o papa do existencialismo para Jorge Amado e Zélia, indagando: "- Digam-me como é que um homem tão reacionário, tão estreito quanto monsieur Mesquita, ao falar dos cafezais se transforme num poeta, o mais terno e amoroso?"Enquanto filósofo, Sartre foi de genialidade inegável (embora discutível em muitos pontos). Como ficcionista, afora La Nausée, nada de excepcional. Mas onde Sartre exibe suas limitações é na formação histórica e sociológica, que é muito falha, e na avaliação política, geralmente míope e distorcida. Ao qualificar seu hospedeiro, em Louveira, de ´reacionário´, o intelectual gaulês estava roído pelo ressentimento. Ruy Mesquita explica: "Naquele tempo, no começo dos anos 1960, Sartre ainda não fora derrotado por Raymond Aron no grande debate ideológico que empolgou o mundo, particularmente depois da derrota do totalitarismo de direita na 2.ª Guerra Mundial, que projetou a União Soviética como uma das superpotências que se confrontariam no período da Guerra Fria. O que provocou aquela reação de Sartre foi a honestidade com que Júlio de Mesquita Filho lhe expôs as razões por que acreditava que sua (a de Sartre) visão político-ideológica do mundo daqueles dias era completamente equivocada." (Ruy Mesquita, Apêndice, p.370)Patriota Mesquita Filho o foi, em grande estilo. Muito patriota e nada nacionalista. Esta distinção deve ser feita. Formado no espírito do liberalismo político e econômico, Mesquita queria seu País aberto à comunidade das nações, mirando-se no modelo dos Estados mais desenvolvidos. Seu propósito foi somar o Brasil ao patrimônio da cultura universal, européia e norte-americana. Ao criar a Universidade de São Paulo, convidou mestres franceses de nomeada para lecionar. Seu patriotismo esclarecido rejeitava o nacionalismo estreito, xenófobo, e qualquer interesse pelo nativismo tipo Policarpo Quaresma, que não combinava com sua inteligência aberta, arejada e universalista.Seu patriotismo rejeitava a xenofobia estreita2. Quanto à força do caráter, por sua transparência, foi, talvez, o traço mais visível e saliente em Júlio de Mesquita Filho. Quando esteve preso, na Revolução Constitucionalista de 1932, enquanto muitos companheiros recuavam, acovardados, prestou mais de um depoimento assumindo e declarando sem disfarces suas convicções políticas em confronto aberto com as disposições anti-democráticas e anti-liberais que dominavam o cenário. E isso no ambiente tenebroso e desumano da prisão. "Aí nesse cubículo permaneciam trapos humanos, reduzidos à última expressão pelas tremendas sevícias que haviam sofrido e continuavam a sofrer. ...Um deles suicidou-se, porque era terrível a pressão que todos sofriam. ...Pessoas, rapazes com 20 anos, com dentadura admirável, voltavam das sevícias sem nenhum dente, com cacos apenas, com a orelha arrancada. Isso era constante." (Depoimento de Mesquita ao jornal O Estado de S.Paulo, em 15-02-1992, pp.62s). Declara que não sabia como sua vez de ser torturado não chegou. Mas jamais se intimidou.Sobre sua valentia fala ele mesmo nas cartas e depoimentos que deixou. Acerca de sua integridade, contamos com o testemunho insuspeito de Antonio Candido: "Ele foi íntegro no sentido mais completo da palavra, desde a honestidade intransigente e abrupta até a fidelidade aos princípios e compromissos. Por isso, quem o conhecesse bem, mesmo discordando de suas posições políticas (era o meu caso), respeitava as suas posições culturais, admirando a coerência com que as concebia e o destemor com que lutava por elas" (A. Candido, Apêndice, p.356).Entretanto, foi na luta sem quartel que sustentou contra a venda espúria do jornal, que melhor revelou toda a grandeza de sua visão e de sua tenacidade heróica. Voto vencido por quase unanimidade (1), solitário na defesa de sua decisão de não alienar o jornal de jeito algum, e a nenhum preço; caso contrário, cederia à pressão maquiavélica da ditadura, que queria suprimir o periódico. Dr. Julinho mostrou, então, toda a fibra de sua resistência ao que classificava de vergonhosa capitulação."Não há nada, absolutamente nada que eu não esteja disposto a sacrificar em defesa do Estado." (Carta, p.259) Por que tanta intransigência? O produto da venda não lhe garantiria, a ele e à família, a merecida folga econômica após tantos anos de provação não só moral, como material, com a esposa, Marina, tão sacrificada, três filhos pequenos em escola paga, com freqüentes problemas de saúde, dificuldades de moradia e dívidas a liquidar? Mesquita Filho acusa nas cartas duas singularidades mal conhecidas de seu feitio senhorial. Primeiro, abominava do fundo da alma a vida acomodada, com excesso de conforto e facilidades, irresponsável, refestelada nos prazeres e no luxo. Havia nele certo pendor ascético. Segundo, demonstrou a vida inteira o mais solene desprezo pelo homens do dinheiro, pelo dinheiro, e por decisões tomadas por amor ao dinheiro. Longe de convencê-lo, este discurso ´pragmático´ só o irritava.A luta contra a venda do Estado, vitoriosa no final, foi o drama dentro do drama (prisão, exílio, separação forçada da família e da pátria, privações afetivas e materiais). Hoje só podemos aplaudir a obstinação, a resistência e a bravura do herdeiro do velho Júlio Mesquita. Com efeito, cumpre indagar o que é O Estado de S.Paulo na ordem das coisas? Não é uma simples empresa comercial, não é um instrumento de ação político-partidária, nem algum órgão de entretenimento. Não, OESP é uma instituição, uma instituição cultural, ou seja, um patrimônio de idéias e ideais a serviço da sociedade e responsável pela formação moral e intelectual de sucessivas gerações de leitores. Portanto, uma instituição, no maior rigor a na maior plenitude da palavra. E uma instituição não se vende. Certamente, foi esta intuição que iluminou e alimentou a decisão de não capitular jamais, sustentada como questão de vida ou morte por Mesquita.3. À testa da instituição cultural que é o jornal (não se esqueça que foi em suas páginas que nasceu Os Sertões, de Euclides da Cunha), só poderia estar um homem de cultura, e de alta cultura, como foi Júlio de Mesquita Filho. O traço dominante no seu perfil é este - o amor incondicional pela cultura. Escudado no arcabouço de ferro de seu caráter, e inspirando sua doutrinação liberal-democrática, palpitava com força o homem de cultura, o humanista de larga visão, lastreado na mais sólida formação clássica. Estudioso sistemático, leitor incansável, alimentava suas convicções com o que há de melhor na filosofia política, na História, na sociologia e na literatura. À certa altura da correspondência deparamos com esta declaração patética, que define essencialmente sua personalidade: "Decididamente, entre a conquista do mundo interior e a do mundo exterior, não hesito. Sou por aquela." (Carta de 20-05-1939).Quem sentiu de perto a vibração e o fervor cultural de Júlio de Mesquita Filho, foi Gilles Lapouge. Com que carinho, com que compreensão, com que gratidão este máximo jornalista e escritor francês acompanha de perto os passos do Dr.Julinho em seus primeiros contatos com ele, que viajou até o Rio para receber o jovem jornalista. "Na minha memória, me vejo trêmulo, magro, diante daquele homem alto, elegante, o porte magnífico, sorridente e intimidante ao mesmo tempo, e que se exprimia num francês irrepreensível, com algumas expressões arcaicas , utilizando sutilezas de linguagem que até mesmo poucos franceses conhecem." (G.Lapouge, Apêndice, p. 365). Não se sabe o que mais admirar, se o perfeito retrato de uma personalidade desenhado por Lapouge, ou sua encantadora modéstia, sua comovente simplicidade. Que diferença da atitude de Sartre e de seu ´coup de bêtise´, ao classificar Mesquita como "reacionário", "estreito" e "medieval". Pelo contrário, diz bem Lapouge sobre seu amigo brasileiro: "Perspicaz, via além dos fatos."O homem de cultura, o intelectual, o humanista"A seguir o doutor Mesquita me falou do poeta Paul Valéry. Seu conhecimento me surpreendeu - ele recitava poemas inteiros, eu também conhecia alguns. Minha estada começou com poesia - um bom presságio. A conversa passou para a literatura francesa em geral, que o doutor Júlio apreciava e conhecia bem." (G.Lapouge, Apêndice, p.366).O forte, o que havia de decisivo na pessoa de Júlio de Mesquita Filho era o homem de cultura, o intelectual, o humanista, o qual, somado ao patriota inflamado, soube consolidar a obra iniciada pelo pai, o velho Júlio Mesquita, - que foi transformar um jornal, um periódico diário, numa verdadeira instituição, caso raro no mundo e único no Brasil.Em sua forma de redação transparecia em cada palavra o gosto intenso pela cultura, pelas idéias nítidas, um estilo denso, vigoroso, mas sem nenhum pesadume, antes muito responsável, e salpicado aqui e ali de alguns toques francamente líricos.Aquele homem de "porte magnífico", no dizer de Lapouge, que parecia sobranceiro como um promontório, era também homem de coração e delicados sentimentos, como comprovam as muitas linhas escritas quase em lágrimas aos filhos pequenos e à esposa Marina, mulher também de fibra, gênio forte, redigindo com fluência e mostrando familiaridade com a boa literatura. "Mulher de exilado vira Sevigné, vive escrevendo." Digna esposa daquele marido, Marina Vieira de Carvalho Mesquita,que o acompanhou nos dois exílios, só voltava uma vez por ano para visitar os filhos (2), encarnava as melhores virtudes da mulher paulista de seu tempo - a disciplina doméstica, o domínio emocional, a fortaleza do caráter, temperadas por insopitável vivacidade e simpático senso de humor sempre presente, cheio de malícia inteligente, prova de sua coragem inabalável em meio a tantas adversidades.(1) Na verdade, Júlio de Mesquita Filho teve sempre o apoio de seu irmão Francisco na sua luta contra a venda do jornal.(2) Dona Marina acompanhou o marido nos dois exílios. Em 1932, em Portugal, os filhos também acompanharam os pais. No exílio de 1938, ficaram no Brasil, e eram visitados pela mãe na época das férias de meio de ano. As cartas de dona Marina ao marido são sempre desses períodos.

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