A saga brasileira dos confederados

Obra traz imagens e documentos de norte-americanos que migraram para o País

Pablo Pereira - O Estado de S.Paulo,

18 Fevereiro 2012 | 03h00

A história dos confederados norte-americanos, que perderam a Guerra Civil da Secessão nos EUA, no século 19, e migraram para as matas amazônicas brasileiras como soldados da borracha, vai ganhar um novo livro. Os pesquisadores norte-americanos Gary John Neeleman e Rose Maurine Neeleman preparam para os próximos meses o lançamento de The Confederate Migration to Brazil (título provisório) contando a odisseia dos compatriotas no Hemisfério Sul após o fim da guerra, em 1865.

Usando documentos do Senado dos EUA e imagens inéditas no Brasil, feitas por fotógrafos norte-americanos, Gary e Rose planejam mostrar como os confederados migraram e se espalharam pelo País, chegando a formar comunidades que deram origem a cidades como Americana, em São Paulo, e Santarém, no Pará. "Com essa obra, avançamos para uma trilogia que pretendemos fazer com Trilhos na Selva (Bei, 2010) e um outro livro que preparamos para 2013, sobre os soldados da borracha", afirma a pesquisadora Rose Neeleman.

Há quase duas décadas o casal Neeleman estuda a migração de norte-americanos na segunda metade do século 19, período no qual o imperador brasileiro dom Pedro II incentivou a aproximação com os Estados Unidos para atrair os derrotados na luta da Secessão para o projeto de colonização brasileiro. O imperador viu na diáspora dos vizinhos do Norte, após quatro anos de violenta divisão interna (sulistas escravagistas contra o norte abolicionista), uma oportunidade de atrair americanos para ocupação de áreas desabitadas do maior país do Hemisfério Sul - que, à época, já recebia imigração alemã e italiana, além dos ibéricos.

"Dom Pedro foi mesmo à caça dos confederados", diz Gary Neeleman. Ele lembra que o imperador enviou representante aos EUA para convencer o governo norte-americano a ajudá-lo na empreitada. Para Neeleman, dom Pedro II estava convencido de que famílias de confederados poderiam encontrar no Brasil também uma saída para a perseguição movida pelas tropas vitoriosas. "Dom Pedro estava certo na política de abolição", avalia o pesquisador. Ele acredita que se os Estados Unidos tivessem seguido o modelo brasileiro de distensão política no processo da abolição da escravatura, ponto crucial na guerra civil americana, "com certeza teria sido evitada a tragédia do conflito em que morreram cerca de 600 mil pessoas".

Antes de escreverem The Confederate Migration to Brazil, os Neeleman esmiuçaram 306 documentos do Senado dos EUA sobre a imigração para ocupação do território amazônico. Gary lembra que a corrida em busca de fortuna nos seringais da Amazônia atraiu 55 mil imigrantes para a região, entre brasileiros e estrangeiros. "E 26 mil deles morreram durante o processo de exploração ", afirma o autor.

Para a obra que ainda está em fase de apuração e deve sair no ano que vem, especificamente sobre os desbravadores dos confins amazônicos, nomeados como "soldados da borracha", os Neeleman garimparam também imagens de líderes brasileiros do século 20, como Getúlio Vargas, e documentos encontrados em acervos dos Estados Unidos. Haverá no livro preciosidades, como os acordos diplomáticos entre os dois países no delicado momento da 2.ª Guerra Mundial. "Reproduzimos texto do acordo assinado em março de 1942, que autorizava a liberação de dinheiro, US$ 100 milhões, para pagamento dos trabalhadores na extração da borracha", explica o pesquisador. Essa verba, segundo ele, nunca chegou aos caucheiros no interior dos seringais.

Os livros, que estão em negociações com a editora Bei, no Brasil, e a Utah Press, nos EUA (para a edição em inglês), tratam particularmente de um momento histórico no qual o presidente Abraham Lincoln trabalhava para manter a União da América do Norte contra as forças separatistas do Sul, contrárias à libertação dos escravos. A migração dos confederados para o Brasil é parte da conquista de uma pacificação que demorou a acontecer. O tema é, ainda hoje, uma espécie de tabu na sociedade americana. Lincoln era contra a Secessão e comandou a vitória do Norte sobre o Sul. Foi assassinado no dia 14 de abril de 1865, em Washington, por John Wilkes Booth, um fanático contrário à sua política de pacificação. Booth era branco e escravagista. Ator, foi morto dias após ter atirado em Lincoln.

Com apoio de Pedro II, as famílias confederadas que embarcaram rumo ao Sul continental foram levadas para o Pará, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná e São Paulo, onde chegaram por Santa Bárbara d’Oeste e, depois, por Americana.

 

Na capital paulista, onde esteve recentemente, Neeleman comentou uma passagem pitoresca da visita do imperador d. Pedro II aos EUA, em 1876. O trem que levava o imperador do Brasil, segundo o pesquisador, parou em Nevada, Estado vizinho de Utah, para captar água. "O trem retomou a viagem e dom Pedro II ficou para trás." O grupo só se deu conta da ausência do imperador no fim da viagem. "E o trem teve de voltar 200 milhas para buscá-lo", conta o pesquisador.

Da política de boa vizinhança Brasil-EUA surgiram contribuições na área da agricultura, explicou Neeleman. As famílias de norte-americanos que vieram para cá naquele período trabalharam na plantação de algodão e outras culturas. "Você sabia que foram eles que trouxeram, numa bolsa, as sementes da melancia?", pergunta o pesquisador.

Para a professora da USP Silvia Maria do Espírito Santo, doutora em Ciência da Informação, que trabalhou na recuperação do acervo de Dana B. Merrill - fotógrafo oficial da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré -, que está no Museu Paulista, as imagens encontradas na pesquisa dos Neeleman podem preencher lacunas na obra do repórter americano. "Não conheço as fotos, mas elas, certamente, podem contribuir para ampliar o que já temos catalogado do Museu sobre a Madeira-Mamoré. A Fundação Osvaldo Cruz também tem imagens daquele período", diz a professora.

Em Trilhos na Selva, que trata do dia a dia de trabalhadores na ferrovia da morte Madeira-Mamoré, em Rondônia, Gary Neeleman já relatava casos de norte-americanos confederados que optaram por viver na Amazônia brasileira. No livro, ele destaca que esses americanos foram pioneiros na extração da borracha do mato, quando a indústria automobilística vivia seu boom oitocentista. Mas o cerne do livro é a participação deles na construção da estrada de ferro ligando Guajará-Mirim a Porto Velho, já na virada do século 20.

O povo do Norte olhava para a seringa como um produto gerador de riqueza, o ouro branco, a seiva da fortuna. Mas, do ponto de vista do Império, o tempo era de uma ocupação geográfica descrita à miúde por autores como Euclides da Cunha. E acabou por integrar a estratégia de consolidação da política do "Uti possidetis" (princípio da posse territorial pela ocupação) adotada nas Relações Exteriores do Brasil por orientação do barão do Rio Branco. O barão, aliás, representou, àquela altura, uma espécie de pai das fronteiras nacionais brasileiras. Foi ele o principal responsável pela investida de consolidação do atual mapa, do País, que terminou por integrar o Estado do Acre por meio do Tratado de Petrópolis, de 1903. Foi também Rio Branco o articulador maior da mudança no eixo diplomático brasileiro da Europa para a América do Norte, a partir da criação da primeira embaixada do Brasil no exterior, em Washington, entregue ao diplomata e escritor Joaquim Nabuco. É nesse ambiente que o casal Neeleman procura demonstrar a relevância da presença norte-americana em território brasileiro.

"No livro Trilhos na Selva quisemos mostrar a face humana desse imigrante, focar nos personagens", explica Gary Neeleman. O livro contém, além de imagens de Merrill, fotos de Oscar Pyles, filho de uma família de confederados que já vivia na cidade de Americana, no interior paulista, desde 1866. Seguindo o caminho desses migrantes, os Neeleman acrescentaram novas imagens àquela viagem centenária. "No primeiro volume da planejada trilogia já há imagens que não eram conhecidas no Brasil", diz Gary Neeleman. A pesquisa sobre o passado dos compatriotas levou o casal a Americana, onde encontraram material sobre a saga confederadas que até então não passava de guardados de família. De uma destas famílias os pesquisadores receberam uma lata com fotos e páginas de jornal editado em inglês na primeira década do século 20. Trilhos na Selva reproduz essas páginas do periódico The Porto Velho Marconigram, publicado em Porto Velho, com a curiosa frase de apoio, escrita em espanhol: "La vida sin literatura y quinina es muerte" (sic) - referência ao então famoso uso do quinino para combater a malária que assolava a região. A preciosa lata de documentos, oferecida aos Neeleman, continha também fotos de Merrill e de Oscar Pyles.

Ex-diretor da agência noticiosa United Press International (leia abaixo), e habituado, portanto, à manufatura jornalística, Gary Neeleman viu logo que os guardados eram ouro. E usou sua experiência em apuração de informações e edição para organizar o raro material coletado. O resultado é uma aula de história dos primeiros anos do Brasil no século 20.

De missionário mórmon a 'cônsul'

Ex-diretor da United Press International (UPI) e atual cônsul honorário do Brasil em Salt Lake City, onde nasceu, Gary Neeleman, hoje com 77 anos, chegou ao Brasil aos 20, em 1955. Veio como missionário mórmon. Sem falar uma palavra em português, instalou-se em Ponta Grossa, no Paraná. Lá, decidiu enfrentar o idioma nas ruas. "Aprendi a língua com o povo", garante. Por três anos, peregrinou pelo Sul do País como pregador, morando também em Ipomeia e Videira, em Santa Catarina, e na capital paulista. Em 1957, Neeleman voltou para Salt Lake City. O motivo: uma promessa de união, feita aos 16 anos, à namorada, Rose Maurine. Gary Neeleman era, então, um jovem dividido. "Você vai para o Brasil comigo?", perguntei a ela, recorda Neeleman. Rose: "Agora você está em casa. Por que voltar para o Brasil?", questionou a moça, que nunca tinha viajado de avião. A resposta: "Eu não terminei minha tarefa lá". Hoje, Gary e Rose são pais de sete filhos, três deles nascidos no Brasil, avós de 34 netos (20 brasileiros) e bisavós de seis crianças, todos com dupla cidadania. Por ironia, diz Rose, um dos filhos, David, criaria uma empresa aérea, a Azul, onde trabalha com o irmão Mark. Com sua experiência no Brasil, Gary acabou incentivado pelo amigo e diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington, a assumir um cargo como voluntário em sua cidade natal. A comunidade brasileira em Salt Lake City é de cerca de 15 mil pessoas. "Ele me chamou e disse: ‘Não há dinheiro. Mas você vai ganhar um brasão, uma bandeira e 10 mil dores de cabeça’", brinca o pesquisador. "Tempos depois o encontrei e falei: a primeira parte era tudo verdade. Mas são muito mais do que dez mil dores de cabeça", diverte-se Neeleman, autor do romance Farewell, My South (Adeus, Meu Sul, Bantan, 1984). O tema do livro: a presença dos ex-confederados no País.

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