A safra de 1942

Quando eles tinham 14 anos, que sons vinham do rádio e das praças para formar uma turma tão prodigiosa?

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h09

Os espíritas diriam que foi uma reencarnação em massa de mentes iluminadas. Quiroga - ou Susan Miller - identificariam uma conjunção planetária das brabas em ação nos céus da época. Nostradamus, sem dúvida, opinou. Mas há pouco, na esfera da lógica, que nos ajude a esclarecer a força criativa dos anos 60.

O que havia, por exemplo, na água para que a época produzisse uma média tão alta de gênios por ano e metro quadrado (Dylan, Hendrix, Sir Paul McCartney, Sir Paulinho da Viola)? O que comiam os monstros dos anos 60, que continuam sagrados, ano após ano, e ainda reinam vitalícios ou póstumos no altar da cultura pop brasileira, sem perder a influência sobre o que acontece hoje em dia? A verdade é que ninguém sabe, e talvez o melhor seja encarar os anos 60 da mesma forma que os macacos de Stanley Kubrick encaram o monólito: fascinados e temerosos. Mas a pergunta há de voltar, principalmente em um ano como 2012, em que Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Tim Maia (in memoriam) e Jorge Ben Jor (este último sem voto unânime) fazem 70 anos.

Uma boa tese foi apontada pelo jornalista David Hadju, em um artigo para o New York Times, no ano passado. Na ocasião, Bob Dylan fazia 70 (um ano antes de Brian Wilson, Carole King, Hendrix e Lou Reed), e Hadju baseou-se no livro A Música em Seu Cérebro, de Daniel J. Levitin, para esclarecer o fenômeno. De acordo com Levitin, a fase em que o cérebro é mais sensível à influência musical é aos 14 anos. "Os hormônios da puberdade fazem tudo o que nós experienciamos parecer muito importante, inclusive a música. É a fase em que chegamos a um ponto de desenvolvimento cognitivo em que passamos a desenvolver nossos próprios gostos", disse ao jornal. A tese de Hadju é de que 1955-56, quando todos esses gênios fizeram 14, foram os anos em que Elvis Presley virou um fenômeno. E o que seria de Dylan e cia, se tivessem passado por esta fase alguns anos antes, quando o pop passava por um certo marasmo de bom-mocismo?

A tese de Hadju nos ajuda a explicar, em parte, o fenômeno musical brasileiro dos anos 60. Embora não haja, entre os nossos gênios, uma influência comum, como Elvis, ter 14 anos, em 1956, era amadurecer em uma época especialmente fértil do rádio brasileiro. "A gente ouvia muito rádio nessa época", explica Paulinho da Viola. "Eu acredito que mesmo vivendo em Estados diferentes, a influência disso foi muito forte no trabalho da gente. Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Orlando Silva. Noel Rosa. Tudo isso tocava no rádio e foi muito marcante para mim. Em casa, a influência do meu pai também foi importante", completa. Era a época em que Paulinho começava a acompanhar seu pai, César Faria.

Se no Rio, samba e choro eram as palavras de ordem, o baião dominava no Nordeste. Diz Gilberto Gil: "Foi nessa idade que eu vi meu primeiro show do Jackson do Pandeiro com sua parceira Almira Castilho, na Bahia. O Jackson estava no auge, e aquilo mudou minha vida. Eu queria ser como ele. Jackson era um showman", conta. Mário Reis e Chico Alves, cantores da era dourada do rádio brasileiro, chegavam pelas emissoras de Salvador.

O impacto do rádio nos 14 anos de Milton Nascimento foi igualmente importante: "Nessa época, eu morava em Três Pontas, sul de Minas, e me lembro que, entre 12 e 13 anos de idade, eu era locutor na cidade, porque meu pai tinha arrendado a rádio. O nome do programa era Você Pede a Música, mas quem escolhia todas as músicas era eu (risos). E por causa desse 'trabalho' eu tive a sorte de ouvir muita música italiana, francesa, cubana, americana e, é claro, muita música brasileira da época", conta Milton.

Foi também uma fase importante para o desenvolvimento de sua voz. "Quando minha voz começou a engrossar, eu tive um medo danado. Meu pai, Seu Zino, estava num lugar de nossa casa lá em Três Pontas onde ele costumava trabalhar. Cheguei, fiquei perto dele, e eu estava muito triste, pensando que se minha voz engrossasse eu não conseguiria mais cantar. Até que começou a tocar uma música no rádio, era o Ray Charles cantando Stella by Starlight. Aquilo quase me matou de emoção. Posso dizer que Ray Charles salvou minha vida naquela época, pois foi justamente por causa dessa música que me veio a certeza de que eu poderia cantar do jeito que mais gostava", conta.

Talvez as influências desta diversidade de cenas musicais que surgiram em uma mesma época tenham inspirado todos e terminado por criar um caldo criativo que iria estar no ponto lá pelos anos de 1964, 1965. Mesmo assim, quem não viveu nos anos 60 há de questionar os mistérios de um tempo tão rico e, por vezes, tão mais interessante deste que vivemos hoje.

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