A Rússia antes e após o comunismo

Mal desembarcou na quinta de manhã em Guarulhos, Marina Goldovskaya já estava dando sua primeira entrevista - ao Estado. Ela chegou cansada, mas disposta a cumprir a extensa agenda, que incluía, naquele primeiro dia, encontros com o público à tarde e à noite. A homenageada do 16.º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade veio dizer o que seus admiradores já sabem, ou intuem. O cinema, e o documentário, devem fornecer testemunhos. Os de Marina referem-se à Rússia durante e após o comunismo, tema obsessivo de sua obra autoral. Mas não bastam os temas - não é por ser documentário, e militante, que um filme vai prescindir da inovação e do cuidado com a linguagem.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

"A narração é tudo", ela informa. Do seu ponto de vista, o compromisso é com a democracia\, por isso não identifica "seu" estilo. Ela tenta se adaptar aos temas e personagens. Mais que um estilo, uma maneira de filmar, enquadrar, ela se identifica pelo engajamento político e preocupação ética. São lições que não se cansa de repassar aos alunos - Marina tem lecionado nos EUA. Crítica do comunismo (foi combatente contra o Gulag), ela continuou batendo duro na Rússia pós-comunista, marcada pela corrupção e violência. Amiga da jornalista Anna Politkovskaya, assassinada por grupos aos quais se opunha, dedicou a ela o documentário, O Gosto Amargo da Liberdade.

A retrospectiva que o festival lhe oferece privilegia títulos como A Casa da Rua Arbat e O Príncipe Está de Volta. A casa do título permite a Marina falar sobre as transformações ocorridas na antiga URSS. O Príncipe acompanha aristocrata que após o comunismo. "Meu cinema segue as transformações ocorridas no país. Eu mudo como pessoa. Dizem que os autores estão sempre refazendo o mesmo filme. Para dar conta do mundo, e do processo democrático, eu mudo."

O É Tudo Verdade termina hoje com a entrega dos prêmios aos vencedores. Há uma competição nacional e outra internacional, com júris diferenciados. Os vencedores da etapa nacional integram-se à competição internacional. O festival tem exibido, em concurso e fora dele, documentários importantes assinados por grandes nomes do cinema brasileiro, como Sílvio Tendler. Tancredo, seu novo filme, segue a vertente de Os Anos JK e Jango. Com Tancredo, ele se volta para o mineiro Tancredo Neves para refletir sobre o processo de transição, quando o Brasil saiu da ditadura para a democracia, por meio do movimento das diretas já. Entre os que falam, Fafá de Belém lembra sua passagem pelos palanques das diretas já, quando, cantando a capela, permitiu que toda uma geração se reencontrasse com o Hino Nacional, que havia sido "sequestrado", com o próprio conceito de pátria, pela ditadura. Quem nunca se emocionou ouvindo Fafá cantar o Hino tem agora mais uma chance. Aquilo é história - do Brasil.

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