A ruptura radical de Paulo Scott em obra sobre novas ideologias

Ithaca Road é o mais recente lançamento da coleção Amores Expressos, encomenda da Companhia das Letras

VINICIUS JATOBÁ, ESPECIAL PARA O ESTADO, VINICIUS JATOBÁ É , CRÍTICO LITERÁRIO, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h09

Até o momento, o afamado projeto Amores Expressos brindou os leitores com sete narrativas longas, cinco romances, uma novela e um livro de contos interligados. O resultado geral é caótico e desigual, e essa é a sua contribuição mais saudável: retirando os autores de suas zonas de conforto e os forçando a criar suas narrativas após uma experiência de imersão em realidades distantes da brasileira, a série impõe um movimento criativo que deveria se tornar mais constante: a encomenda. Contratar um livro de um autor e forçá-lo a escrever uma narrativa que não existiria naturalmente, que é uma regra em outras expressões artísticas - como filmes, pinturas, teatro, música -, ainda é um movimento algo tímido no mercado editorial brasileiro.

Sérgio Sant'Anna, em O Livro de Praga, ainda transitou no universo entre vida e sua representação artística que define boa parte de sua trajetória criativa, e Luiz Ruffato encontrou em Estive em Lisboa e Lembrei de Você uma maneira de trabalhar seu grande tema, a cultura da emigração. Mas no caso de Joca Reiners Terron e João Paulo Cuenca, seus esquisitíssimos romances, Do Fundo do Poço se Vê a Lua (Cairo) e O Único Final Feliz para Uma História de Amor É Um Acidente (Tóquio), liberaram o melhor de suas criatividades: tanto o universo artificial e conceitual em que Terron trafega com imenso conforto e confiança, quanto a vocação para o flerte com o clichê e o lugar-comum de onde Cuenca arranca a energia irônica de suas narrativas e crônicas.

Nunca Vai Embora, de Chico Mattoso, é uma comédia em que um casal viaja para Cuba em busca de uma lufada de novidade e de energia apenas para encontrarem ainda mais instabilidade e desencontro. Em Cordilheira, de Daniel Galera, uma escritora com desejos de maternidade viaja a Buenos Aires e acaba por se envolver com um estranhíssimo culto literário.

A última entrega do projeto é Ithaca Road, de Paulo Scott. É uma ruptura radical com o poderosíssimo Habitante Irreal, o maior enfrentamento ficcional com o campo ideológico nacional pós-ditadura, que encena por meio de uma mitologia do PT o esvaziamento político de toda uma geração anteriormente engajada. Mais ágil e despojado, protagonizado por Narelle, que chega a Sydney para ajudar no restaurante em falência de seu irmão, é um romance em que o amor aos outros é ameaça constante ao amor-próprio, às fortalezas do amor-próprio, que vão ruir quando ela conhece uma menina autista, Anna. Há duas batalhas ao longo do livro: a psoríase, que ataca sua pele quando se sente ameaçada e afrontada; e justamente o fato que não há mais como fugir, e Narelle deve fincar pé, e permanecer.

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