João Caldas/ Divulgação
João Caldas/ Divulgação

A rua invade a casa

Ainda que se passe entre quatro paredes, peça de García Lorca traz profunda reflexão política

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2013 | 02h19

Em A Casa de Bernarda Alba, nada escapa ao domínio da mãe, que mantém as filhas encarceradas. Todas as ações se passam entre quatro paredes. O que não quer dizer que Federico García Lorca deixasse de trazer para o cerne da obra o contexto político que abalava a Espanha naquela época. "Ainda que esse drama aconteça dentro de casa, a todo o momento se sentem os efeitos da ditadura que se aproximava lá fora", observa Walderez de Barros, atriz que vive o papel título na versão que estreia sábado.

Bernarda Alba foi o último texto deixado pelo escritor, assassinado dois meses depois de concluí-lo. Não por acaso ordenaram sua prisão dizendo que se tratava de "um homem mais perigoso com a pena do que muitos o são com a espada".

Impressionante, porém, é como as inquietações com as quais o poeta impregnou sua escrita - por mais que dissessem respeito a uma realidade específica - continuem a fazer sentido. "Lorca está muito próximo da realidade brasileira se pensarmos em termos políticos", acredita Elias Andreato, diretor da montagem. "A gente conhece muito bem sobre o que ele está falando. Nossos poetas e artistas também foram mortos. Ainda sentimos os efeitos da ditadura militar."

Recentemente, outro grupo paulistano lançou-se à tarefa de revisitar Lorca. E também conseguiu amarrá-lo à história recente do Brasil. A partir do texto Mariana Pineda, a Cia. do Tijolo criou o espetáculo Cantata para Um Bastidor de Utopias.

Mártir verídica de seu país, Mariana Pineda morreu no século 19, pelas mãos do regime do rei Fernando VIII. A esse enredo, os diretores Rogério Tarifa e Rodrigo Mercadante somaram o próprio fim trágico de Lorca, cujo corpo nunca foi encontrado, e o dos desaparecidos da ditadura militar brasileira. E não pararam por aí: até as contradições das grandes cidades e suas novas formas de opressão couberam no espetáculo.

Contar uma história. Walderez de Barros está acostumada a lidar com espetáculos de conotação política. Na juventude, participou do Centro Popular de Cultura UNE. Frequentava o Teatro Estudantil do Teatro de Arena. Chegou a encenar peças dentro de fábricas, nos anos 1970, para os operários. Para a atriz, o que garante tamanha "eficácia" ao texto de Lorca em traçar paralelos com situações políticas é "sua capacidade de contar uma boa história. Ele está a narrar o que aconteceu a uma determinada família, em um vilarejo espanhol, em uma época específica. Mas, falando disso, consegue expor a opressão, os efeitos de um poder absoluto, a maneira como a burguesia sempre rejeita qualquer revolução".

O que está curso na casa de Bernarda Alba são as agruras de oito mulheres. Sete delas sedentas por liberdade. Mas todas controladas pela matriarca tirana, que detém o poder. Após a morte do marido, Bernarda fecha ainda mais o cerco sobre suas filhas e criadas. Quer impor-lhes o luto absoluto. Quando elas, na verdade, anseiam por luz e por amores.

Em sua encenação, Elias Andreato capta esse desejo de vida e o evidencia, principalmente na música - trilha original de Daniel Maia - e nos figurinos, assinados por Fause Haten. "O prazer é uma coisa libertária. Essas mulheres, ainda que não estejam na presença de nenhum homem, querem conquistar."

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