A rua e um porta-malas como cenários

Estacionado na rua, perto do toldo do Teatro Oficina, no bairro do Bexiga, um carro com o porta-malas aberto. Cenário habitual para quem se acostumou com os porta-malas transformados em vitrine que povoam São Paulo. Nesse, foi instalada uma tela enorme de TV, que ocupa toda a largura do porta-malas. Quem chega detém-se atraído pelo que está sendo exibido, mas ainda não sabe que já começou a assistir Área Reescrita, o mais recente trabalho da J. Gar.cia Dança Contemporânea.

Crítica: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2010 | 00h00

Aquela tela mostra os cinco filmes produzidos pelo elenco a partir das intervenções urbanas que realizou durante quatro meses de andação pela cidade, e mais dois meses de preparação do material: Hotel 23 (Amanda Raimundo), Rés Vés (Alexandre Magno), Inverso (Marina Massoli), Nosotros (Natalia Mendonça e Paty Bergantin), Ponto Móvel (Martina Sarantopoulos). Setenta minutos depois, quando se sai do Teatro Oficina, os filmes continuam sendo exibidos no porta-malas do carro estacionado.

Ou seja, Área Reescrita começa de onde veio: da rua. Não somente porque a pesquisa ocorreu lá, mas também porque o espetáculo começa lá. Não à toa, escolheu apresentar-se no teatro cujo espaço reencena a circulação pela cidade, o Teatro Oficina. Transformado pelo Ateliê La Tintata com o olho de quem é especialista, fez nascer nele, com sensibilidade e competência, nichos típicos das metrópoles. E nós, o público, ficamos a olhar "pela janela" o que se passa "lá fora".

Nesse "lá fora" estão os oito intérpretes-criadores, cada qual um mestre na execução do que inventou, pois cada qual dirigiu e produziu as próprias ações. Em seus corpos, os vocabulários de dança contemporânea que Jorge Garcia vem hibridando no seu percurso como coreógrafo se misturam, de forma bem calibrada, ao que os quatro meses de investigações na rua agregaram. O resultado traz um sabor de um Le Parkour (a técnica que treina o corpo na exploração de percursos pela arquitetura da cidade) rearranjado.

De repente, irrompem aqui ou ali, em um ou mais corpos, pequenas frases desimpostadas, compostas por gestos desinflados da habitual postura cênica que o corpo que dança tende a assumir. Parecem gestos-chão, gestos-muro, gestos-terra. Gestos sempre urgentes, que parecem fazer parte do ambiente, frutos de uma materialidade às vezes áspera, às vezes aguda.

O que possibilita isso é um outro entendimento de personagem, que bifurca o trajeto artístico anterior de Jorge Garcia. Distante da teatralidade convencional, os personagens agora aparecem e desaparecem de acordo com a qualidade dos movimentos escolhidos.

As cenas se sucedem e também se interpelam, uma perfurando a outra, tal como o caminhar pelas ruas faz com a nossa percepção. Tudo "juntoaquiagora". Acontecimentos em um fluxo intenso e nervoso, com o qual já nos habituamos pelo treino em viver em São Paulo. Tudo isso se dá a ver com um inspirado design de luz de Ari Buccioni, que poetiza cada um dos instantes tão diversos que se sucedem.

Área Reescrita assinala o grau de maturidade no que o grupo vem produzindo. Projeta-a em uma outra direção, a dos que reúne artistas que, de fato, têm o que dizer.

ÁREA REESCRITA

Teatro Oficina. R. Jaceguai, 520, Bexiga, tel. 3104-0678. 5ª a sáb., 21 h; dom., 20 h. R$10. Até 28/11.

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