A roupa nova do presidente

É uma adaptação livre do conto de Hans Christian Andersen, que politizou a literatura infantil e questionou regimes, reis e governos

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2019 | 02h00

Num certo país, escolheram um presidente que era seguro de si e aclamado. Mas que se cercara de gente boa e ruim: os que o apoiavam. Ele duvidava da capacidade de o seu grupo governar. Na política, há malandros por toda parte, e poucos em quem confiar. 

Dois tecelões pilantras perceberam a oportunidade de faturar. Ofereceram ao novo presidente uma roupa que apenas os competentes e inteligentes podiam enxergar. Não pediram dinheiro, mas fios de nióbio para tecer a roupa da posse. Uma roupa de nióbio? 

“Deve ser uma roupa incrível. Se eu usar um manto tão especial, não usual, já no começo do mandato, poderei descobrir quais ministros estão ou não preparados para os cargos, distinguir os tolos dos sábios.”

Os tecelões foram instalados numa ala do prédio do governo em transição. Todos ficaram empolgados com a notícia e ansiosos para ver o tecido mágico. No entanto, os dois pilantras apenas embolsavam os fios do minério e nada teciam.

Desconfiado de tanto nióbio enviado, o presidente pediu para o ministro em quem mais confiava, o das finanças, checar o trabalho dos tecelões. O futuro ministro chegou à ala e tomou um susto. Nada viu, apenas um tear vazio. Os tecelões passavam tesouras e agulhas no vazio, davam pontos com linhas invisíveis e ainda pediram a opinião sobre a cor, o molde e a estampa. O novo ministro nada via, mas fingia, e disse que o trabalho estava admirável. 

“Meus sais, serei um tolo? Ninguém pode saber disso! Será possível que eu não estou preparado para o posto que assumirei? Não, não, eu não posso dizer que eu não consigo ver o tecido.” Falou ao presidente que era o tecido mais lindo que já tinha visto.

Desconfiado com a exaltação do ministro, o prudente presidente enviou o ministro que acabara de escolher, o das escolas. “Meu Deus do céu!”, arregalou os olhos ao chegar à ala. “Eu não estou conseguindo ver nada em absoluto!” Mas ficou em silêncio. Os malandros pediram para o especialista em educação se aproximar. Não admirava o molde primoroso? “Oh, é muito bonito, extremamente belo”, respondeu o recém-escolhido. “Que modelo impactante, que cores brilhantes... Irei imediatamente dizer ao presidente que gostei.”

Os pilantras escondiam todo o fio que recebiam e continuavam a trabalhar em teares vazios. Finalmente, o próprio presidente resolveu checar com os próprios olhos, quando a roupa ainda era “tecida”. 

Foi acompanhado pelo séquito de futuros ministros, secretários, seguranças, políticos, assessores. Ao chegarem... “Não é maravilhoso?”, perguntaram os dois ministros a serem nomeados, apontando para teares vazios. Não queriam ser qualificados como tolos e tinham de disfarçar e mostrar a todos os outros que o enxergava. Ninguém via bulhufas. Ninguém estava preparado para cargo algum?

“Mas o que é isso?”, pensou o novo presidente. “Todos veem, e não estou vendo nada. Isso é terrível! Serei eu o tolo? Será que estou despreparado para liderá-los? Seria a coisa mais terrível que poderia acontecer à Nação.”

“Realmente”, disse o presidente. “O tecido é esplêndido, tem a nossa aprovação.” Toda a comitiva, surpresa, olhou e concordou com o líder. Decidiram que o presidente usasse uma roupa com o tecido já na posse, quando desfilaria para uma multidão. 

“A nova roupa do presidente eleito ficou pronta”, anunciaram os tecelões no dia da posse. Foram todos ao salão principal. Como se estivessem segurando alguma coisa nas mãos, os pilantras mostraram: “Essas são as calças, o casaco. Aqui está o manto. São tão leves, que quem veste se sente como se não estivesse usando nada”.

Diante de um grande espelho, os tecelões pediram para o presidente se despir e o auxiliaram nos ajustes. Fingiram colocar nele peça por peça. Ninguém conseguia ver nada, porque não tinha nada para ser visto. Todos tinham medo de parecer tolos ou despreparados. Ouviu-se: “Incrível...”. “Estupendo...” “Deslumbrante!”

Estavam prontos para a parada. Seguranças ajudaram a carregar o manto. Estenderam suas mãos até o chão, como se estivessem levantando algo, e fingiram segurar alguma coisa em suas mãos. O novo presidente foi às ruas, começou a desfilar. 

Diante da comitiva, saudava eleitores. Caminhavam em direção ao palácio do governo. “Mas ele não está usando nada”, disse uma criança. “Ouviram o que ela disse?”, perguntou o pai. Um passou a sussurrar para o outro. “Mas ele não está usando nada”, gritaram alguns. 

O presidente, no entanto, estufou o peito e pensou: “Agora não posso parar, vou até o fim”. Enquanto os seguranças caminhavam solenemente, com muita dignidade e orgulhosos do novo chefe de Estado, o ministro das finanças disse ao colega das escolas: “Demita o professor daquela criança e recolha os livros adotados”.

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Alguns já sacaram: essa é uma adaptação livre do conto infantil de Hans Christian Andersen, dinamarquês considerado excêntrico, que politizou a literatura para crianças, questionou regimes, reis e governos, mostrou as diferenças sociais, abordou a miséria do seu povo, como no triste conto A Menina dos Fósforos

Revelou a incomunicabilidade da sociedade, enquanto os reinos se esfacelavam, as democracias e repúblicas se fortaleciam, e o marxismo se desenvolvia no ambiente acadêmico. Hoje, nomeia o Nobel da literatura infantil. É dele o conto A Pequena Sereia, cuja estátua é ponto turístico em Copenhagen.

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O marco de Londres é um relógio. O de Paris, uma antena gigante. O de Nova York, uma estátua que representa a liberdade. Na capital da Dinamarca, a sereia personagem de um conto infantil. No Rio, Cristo. Em São Paulo, bandeirantes. Pense nisso.

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