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Arquivo da Família Scholl
Arquivo da Família Scholl

'A Rosa Branca', de Inge Scholl, revê heroísmo dos irmãos Scholl na resistência ao nazismo

Livro revela extensão da cumplicidade da Alemanha com crimes de Hitler

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2014 | 21h20

O nazismo foi a encarnação do Mal, e, no entanto, apenas um punhado de alemães se opôs efetivamente a ele. Explicar tal fenômeno constrangedor tem sido tarefa complexa desde o fim da guerra. Há quem diga que o país foi “hipnotizado” por Hitler, mas essa tese, muito conveniente para os que tentam relativizar a responsabilidade dos alemães pelos crimes do nazismo, está cada vez mais desacreditada, à medida que surgem documentos comprovando o engajamento voluntário de muitos cidadãos comuns no projeto genocida do Terceiro Reich. Resta considerar que os alemães em geral talvez não soubessem a extensão dos crimes que estavam sendo cometidos, e os que sabiam não se sentiam seguros para enfrentar a máquina estatal de terror montada por Hitler no país – resistir, portanto, era temerário, quando não impossível.

Mesmo essa hipótese, contudo, é frágil, principalmente quando se observa que houve, sim, quem tenha tido coragem de desafiar o monstro, como os irmãos Sophie e Hans Scholl e seu grupo de resistência Rosa Branca, que dispunham apenas da palavra escrita como arma. Recém-lançado no Brasil, o livro A Rosa Branca, escrito por Inge Scholl, irmã dos mártires, procura conservar a memória desses heróis, mas é sobretudo um documento importante para retratar a ausência de solidariedade quando se trata de salvar a própria pele.

O grupo de Sophie e Hans Scholl ganhou seu lugar na História quando decidiu chamar a atenção de seus compatriotas para a insanidade que estava sendo cometida em seu nome pelo regime nazista. Por meio de panfletos, espalhados em universidades, procuravam romper a muralha do totalitarismo e inocular na sociedade alemã o vírus da contestação. “Precisamos tentar atiçar a fagulha da resistência que há em milhões de corações alemães honestos para que ela flameje com luz e coragem”, disse um dos integrantes do Rosa Branca numa das reuniões da organização.

Apesar dessa esperança, os rebeldes eram realistas. Sabiam que poucos teriam disposição de aderir à luta – e isso se refletia de certa maneira em seus panfletos, cuja reprodução, aliás, é o ponto forte do livro. Em um deles, o juízo de valor é explícito logo na primeira frase: “Não há nada mais indigno para um povo civilizado do que se deixar ‘governar’ sem resistência por uma corja de déspotas irresponsáveis, movida por instintos obscuros”. Em outro texto, àqueles que dizem ter consciência de que o Terceiro Reich havia se convertido na “ditadura do Mal”, eles perguntam: “Então por que não reagem?”.

A resposta a tão incômoda pergunta é dada no próprio panfleto, quando diz que o espírito dos alemães está tão subjugado que eles esqueceram que era seu “dever moral” lutar contra o sistema. No fundo, os irmãos Scholl e seus companheiros sabiam que sua luta era inglória e que só seria reconhecida pela posteridade, quando seu exemplo de coragem, sustentado até a brutal execução na guilhotina, seria um tapa na cara daquela grande maioria que silenciou ou colaborou com o regime e também um alerta permanente para os alemães do futuro. É o que está dito em um dos panfletos: “Não nos calaremos, somos a sua consciência pesada; a Rosa Branca não os deixará em paz”.

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