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A robótica no Brasil

Uma narrativa vinda do mundo dos espíritos e o espírito da narrativa tiram-me da série de eventos que vão das guerras à pornografia das efemérides políticas nascidas da nossa poluição ética e partidária, a qual segue implacável o que um diplomata russo chamou de Doutrina Sinatra (I did it my way!).

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2014 | 02h06

A narrativa dos espíritos, porém, dá-me alento. Eles me contam que, pelo final do século 22, a robótica terá um extraordinário desenvolvimento no Brasil. O governo que cuida do povo pobre e os black blocs, esses pós-modernos vitoriosos em todos os fóruns jurídicos e políticos, deram finalmente ao Brasil um lugar de destaque tecnológico no primeiro mundo. Liquidamos o Vale do Silício para o eixo Rio-São Paulo, onde engenheiros geniais aperfeiçoaram e revolucionaram a robótica.

A partir do final do século 22, a tecnologia brasileira aplicada à robótica do pioneiro David Levy, desenvolveu os protótipos de robôs "ZéFu-001" e "002", que foram as primeiras "biomáquinas relacionais" destinadas a serem usadas como trabalhadores e como combatentes democratas para destruir o liberalismo burguês injusto por nascimento. Eles também serviram na devastação final da Amazônia e na luta contra os indígenas que, como se sabe, têm muito mais terra do que os nossos benditos latifundiários.

Pelo meio do século 22, essas biomáquinas substituíram todos os trabalhadores livres do País, sendo usados inclusive como artistas. Chegaram a praticar esportes, formando entre 2101 e 2700 um selecionado de futebol invencível, ganhador de 40 Copas do Mundo, nas quais a Alemanha tomava por mais de 10 gols em todos os jogos.

Pena que a New-Fifa extinguiu o futebol robótico - causando um protesto sério da gigante diplomacia brasileira - porque sem derrota não havia competição e, com isso, as rendas dos jogos não cobriam as despesas com publicidade e - dizem meus mentores espirituais - com as sacanagens com ares de "primeiro mundo" da falecida Fifa.

As biomáquinas reinventaram o estado nacional e a sociedade sindicalizada graças ao progresso. Chegava-se finalmente à utopia: as máquinas trabalhavam e os brasileiros ficaram todos ricos para realizar o seu ideal de vida: ficar fazendo o tão decantado "não fazer porra nenhuma!". Jogavam conversa fora, tomavam caipirinha, comiam torresmo, peidavam alto, viam novelas e adoravam os gigantescos programas de auditório que reuniam milhões. Às vezes, viam, com um certo brilho nos olhos, jogos de futebol disputados nos séculos passados.

Em meio a essa ética da preguiça, despontou uma ideia. Agências federais aliada e intelectuais de esquerda (os vociferantes contra tudo isso que aí está até chegarem ao governo) conseguiram aprovar uma resolução que transformava as biomáquinas em escravos. Isso, argumentavam, ressuscitava o estilo de vida dos nossos antepassados, realizando a grande e tão desejada marcha à ré histórica, que, de quando em vez ,retornava, mas agora seria definitiva. Pois ao refazer com a robótica o sistema escravocrata, resolvia-se o problema do ser sempre servido e jamais. Do sempre ter alguém para mandar de modo absoluto. Chegava-se, assim, à consagração da hierarquia e da dominação como o valor nacional inviolável, desmascarando o ardil democrático semi-igualitário que não valia coisa alguma. Legitimava-se com coragem a altivez a escravidão porque os robôs não eram humanos, embora alguns fossem melhores do que muitos patrões. Alguns, corre a lenda, fugiram do Brasil e, depois, deste planeta que diziam ser uma merda numa nave espacial. Eu, disse-me um espírito superior, os acompanhei de bom grado.

Os robôs universais fabricados na Euro-América e na Japachíndia foram suplantados pelos brasileiros porque seguiam a antidemocrática "lei da robótica", inventada por um profeta reacionário de nome Isaac Asimov, no primitivo século 20. Como se sabe, a primeira lei dispunha que um robô jamais poderia ferir um ser humano ou deixar que um humano fosse ferido. A segunda estabelecia que um robô deveria obedecer às ordens dadas pelos humanos, exceto quando essas ordens entrassem em conflito com a primeira lei; e a terceira anunciava que um robô deveria proteger a própria existência desde que tal proteção não entrasse em conflito com a primeira e a segunda lei.

Com apoio do Congresso, do Supremo Tribunal, do Conselho Exclusivo dos Trabalhadores e, sobretudo, do Gerente Real (por séculos ocupado eficientemente por mulheres), os robóticos brasileiros desenvolveram um "chip" que permitia ultrapassar essas regras de fundo reacionário, como são - diga-se logo - todas as regras. Tal acórdão permitiu derrubar as normas antigas e permitiu fabricar robôs escravos modelo Pai João, Sinhozinho e Capoeira (para ser usado em conflitos entre os senhores), bem como os modelos femininos tipo Amélia e Dondoca. Em seguida, fabricou-se um modelo multissexual. Todos tiveram um enorme sucesso porque faziam tudo: não tinham limites.

Essa foi a contribuição inestimável do Brasil - terminou o espírito - ao mundo.

PS: Perdi o contato mediúnico e logo que ele for retomado, em se for possível, continuo.

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