A revolução industrial do Throbbing Gristle

Banda remasteriza seus influentes clássicos dos anos 70

O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2012 | 03h05

Ao lado de Kraftwerk, Cabaret Voltaire, Tangerine Dream e outras, o radicalismo do Throbbing Gristle entrou para a história como uma das forças criadoras do industrial, gênero que rompeu com os procedimentos padrões do rock nos anos 70 (acordes, canções, guitarras, etc.) em favor de experiências sonoras com sintetizadores, loops de fita, sons de ambiente, white noise, sequenciadores e outros artifícios comuns em qualquer obra minimamente experimental de hoje em dia.

A discografia que resultou deste vanguardismo, lançada pela banda entre 1977 e 1980, influenciou uma série de subgêneros de rock, hip hop e música eletrônica nos anos 80 (vide Nine Inch Nails, Ministry e vertentes variadas do underground como a noise music japonesa). Os discos ganharam, no fim de 2011, um devido relançamento remasterizado (disponível para download no iTunes), que soa tão revolucionário quanto atual, a começar pelo clássico da banda, 20 Jazz Funk Greats.

Terceiro dos cinco do Throbbing Gristle, o álbum é uma viagem escura e psicodélica por timbres sintetizados e vocais anêmicos, quase conversativos, que ganham a propulsão rítmica e mecânica de uma bateria eletrônica - um diálogo sinistro com a disco music tão odiada pelo movimento punk, que explodia na Inglaterra ao mesmo tempo em que a banda estava na ativa (os ingleses do Gristle nada viam de revolucionário no manifesto estético dos punks).

É curioso notar o quão controlados e eficazes são os devaneios da banda, sendo que o grupo foi formado com o intuito de romper com qualquer forma de técnica instrumental (o líder Genesis P-Orridge, por exemplo, tocava baixo precisamente porque não sabia fazê-lo). A criatividade dos timbres de Chris Carter é brutal. Eles rasgam e chicoteiam pelas faixas com o controle de quem sabia muito bem o que estava fazendo, formando um híbrido bizarro de disco music que, ao mesmo tempo em que aponta para o obscuro, tem a pulsação comercial como força motriz.

Este casamento deformado está precisamente ligado à ética revolucionária da banda, que surgiu de um coletivo - o Coum - famoso por suas performances escatológicas (sexo, sangue e cabeças de galinha decapitadas faziam parte dos procedimentos). O disco anterior, D.O.A, era o ápice das experiências abstratas do Gristle, portanto uma guinada para o pop era a cartada mais agressiva de uma banda impiedosamente vanguardista. / R.N.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.