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A revolução do corpo

Viva Isadora Duncan e Anitta! Viva todo ser que diz que o corpo pode expressar, protestar e ser

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2020 | 03h00

No dia 29 de abril, segundo determinação da Unesco, celebra-se o Dia Internacional da Dança. Foi escolhida a data por ser aniversário do professor, coreógrafo e bailarino francês Jean-Georges Noverre (1727-1810). Noverre representou a passagem do ballet formal de corte e de teatro para o estudo da gestualidade das ruas para uma “dança em ação”. Assim, o ato de dançar seria mais natural e expressivo. Era admirado pela elite londrina, por Maria Antonieta e por Frederico da Prússia. Foi amigo de Voltaire e de Mozart. Era uma celebridade em toda a Europa.

Leio com admiração biografias como a de Noverre. Vim ao mundo sem habilidades de desenho e de dança. Na minha família, o mal é coletivo e corre, entre nós, o adágio que “se um Karnal souber desenhar ou dançar, é bastardo”. Mais de uma vez, disse que só dançava para acasalamento, ou seja, na fase da conquista e, depois, revelava minha inaptidão absoluta para o bailado. Das musas que presidem ao ato artístico, Terpsícore (da dança) foi a que se recusou a assistir ao meu nascimento. Admiro o corpo falando pela dança, admiro a técnica e a expressividade daquelas mulheres e homens que exibem um ato árduo de trabalho prévio parecer leve. No aniversário de 80 anos da minha mãe, fiz o último e debalde esforço: treinei uma valsa. Felizmente, não foi filmada a pantomima. Os mais generosos diziam que eu parecia aqueles bonecos de posto de gasolina com vento que os ergue e, imediatamente, os derruba. Existe certa honra em reconhecer limites. Dançar e desenhar são limites pétreos meus.

Um dia, usei a imagem de um pé de bailarina em uma palestra. Estava machucado, com entorses e hematomas. Era o fruto de horas pesadas de treino e de muita dor, choro e sacrifício. Quando vemos a graciosa bailarina voando, delicada e ágil, poucos imaginam que a estrada até ali seja tão complicada. A dança é de uma exigência enorme. É verdade, sei como músico amador, que o estudo prolongado de piano causa dor nas costas, cansaço visual e até exaustão das mãos. A dança demanda a dor nas costas, nas mãos, nos pés, no pescoço e na alma. O ato de se entregar a um público é sublime e... exaustivo.

Falei de dança clássica, porém, admiro todas as formas de movimento de corpo. Os passos desconstruídos da street dance, o gingado do samba, os maracatus ritmados, a sensualidade do tango e a coreografia da valsa (não dançada por mim, claro). Nas cortes antigas, saber dançar um minueto e outras formas coreografadas era tão importante quanto a boa conversação e o uso dos talheres. Dançar, para homens e mulheres, era parte da educação formal que se exigia para o convívio.

Admirei imagens ou vídeos de Márcia Haydée e de Mikhail Baryshnikov. Assisti ao vivo à força cigana da dança de Joaquin Cortés. Vi ballets tradicionais (O Lago dos Cisnes, O Quebra-Nozes, Dom Quixote, etc.) no Alla Scala de Milão, em Nova York e em São Paulo. Minha incapacidade pessoal aumenta minha admiração pela sincronia e pelo domínio de cada fibra do corpo com elegância e arte.

Vou ultrapassar algumas fronteiras e chocar os mais pudicos. Admiro, também, as dançarinas de funk em trios elétricos. Sim, sei que muitos colegas intelectuais dirão que é uma coisificação do corpo feminino. Discordo. Acho um empoderamento expressivo uma mulher como Anitta dirigir um cortejo com centenas de milhares de pessoas mesmerizando com um gesto de se abaixar e balançar o quadril. Podem existir excessos em bailes funk? Tenho certeza que sim, como podem existir em sofisticados apartamentos que ouvem jazz melódico e se locupletam de drogas. Há um traço de demofobia no julgamento do funk. O corpo livre vira um manifesto político e o corpo é a área por excelência para o exercício da repressão. Isso vai da barriga gestante de Leila Diniz à minissaia de Mary Quant; da liberdade da primeira-dama Nair de Tefé dançando o Corta-Jaca no palácio presidencial ao ritmo empreendedor de Larissa, mais conhecida como Anitta. O corpo livre incomoda as mentes acorrentadas. O corpo livre da mulher é ainda mais escandaloso. Faz milênios que se ouve o mesmo brado: “As mulheres de hoje em dia estão cada vez mais peladas e mais fáceis. No meu tempo, elas sabiam ter decoro”. Essa é uma frase encontrável no Baixo Império Romano, no Renascimento, ao longo do século passado e no carnaval de 2020. 

Dançar pode ser libertador. Escrevo e imagino se me inscreverei na desconfiança da bastardia da família. Aprenderei a dançar tão próximo à data em que poderei utilizar fila especial de melhor idade nos aeroportos? Talvez sim. No meu caso, trata-se de questão pessoal de relevância discutível. No caso da sociedade em geral, enquanto houver um corpo voando no Lago dos Cisnes ou agitando um trio elétrico, haverá esperança de que ainda exista vida, disciplina da liberdade e projetos vitoriosos. Viva Isadora Duncan! Viva Anitta! Viva todo ser que diz que o corpo pode expressar, protestar e ser sem depender do azedume alheio. Esperança sempre! A esperança faz dançar. 

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