A revolução continua, à base de suingue e muita cacetada

Crítica: Emanuel Bomfim

O Estado de S.Paulo

14 Julho 2012 | 03h08

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Soa irônico, mas a percepção do fim do mundo vem embalada em clima de gafieira. BNegão parece pressentir a derrocada. "É a mensagem na garrafa, eu falei", alerta logo de cara, com a profética Alteração (Éa!). Um breve respiro e a tese ganha em objetividade, além de um samba rock venenoso. É vez de O Mundo (Panela de Pressão), hit imediato, pessimismo em alta. Sente só o drama: "Enquanto uns choram/ Outros se apressam pra vender o lenço/ Isso nunca foi segredo/ Te vendem remédio, plano de vida/ Especulando com seus medos/ Nos livros sagrados já tava escrito há muito tempo/ Qual vai ser a desse enredo, até o final." Como num enredo sci-fi, existe o deslumbramento pelo exercício sobre o que virá, mas no roteiro de Sintoniza Lá, o riso nervoso pelo apocalipse iminente só é aliviado pela sonoridade black irresistível: metais em brasa, riffs poderosos e groove pulsante. É o néctar das múltiplas escolas desvendadas por BNegão ao longo das últimas décadas. Até o hardcore da época do Planet Hemp é resgatado na instrumental Subconsciente. O canto falado, rasgado, é o que torna tudo mais interessante. Impõe uma narrativa sem planos óbvios e evita a letargia de discos de soul nostálgicos. É o rap que revoluciona e continua a dar as cartas na música brasileira contemporânea. Se 2011 foi do Criolo e Emicida, 2012 já é do BNegão & Seletores de Frequência.

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