Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

A revolução científica é posta de forma lúdica na exposição 'Darwin, o Original'

Obra do cientista britânico, que visitou o Brasil em 1832 e se horrorizou com a escravidão, lançou a base da ciência atual e está em exposição no Sesc Interlagos

Luciana Medeiros, Especial para o Estadão

04 de março de 2022 | 05h00

Charles Darwin (1809-1882), nome que se tornou sinônimo de avanço científico na era moderna, quase foi pastor anglicano. Sim, ele mesmo, já chamado de “o homem que matou Deus”. Não persistiu: preferia se dedicar à coleção de besouros. Filho de gente abastada, voltou-se para a pesquisa científica. Embarcou no Beagle, navio da marinha real, e deu a volta ao mundo em quatro anos. Observações, amostras e ideias na viagem embasaram as teorias sobre as transformações da natureza e em particular das espécies vivas. 

O Sesc Interlagos abre neste sábado, 5, a mostra Darwin, o Original, em torno da vida e da obra do revolucionário britânico nascido em 1809, criada pela Universcience, ligada ao Ministério da Cultura da França também responsável pela recente Pasteur, o Cientista. Em 700 m², propõe um mergulho interativo e lúdico, com multimídias, filmes, jogos e contexto histórico. No final do percurso, a sala produzida por Sofia Nestrovski e Leda Cartum, do blog Vinte Mil Léguas, coloca o Brasil na jornada darwiniana.

A Origem das Espécies, obra seminal de Darwin, escrita ao longo de 20 anos, mudou a Biologia e a história evolutiva dos seres vivos. Best-seller já na primeira edição em 1859, ganhou pela editora Ubu, em 2018, uma elogiada tradução de Pedro Paulo Pimenta, professor da Filosofia da USP. Ele lançou, em janeiro de 2020, Darwin e a História Natural – Uma História Filosófica (Discurso Editorial/Ed. Almedina). 

“A sede de Darwin pela experimentação é tremenda; para ele, conhecimento é produto de comprovação”, diz Pimenta ao Estadão. “Ele descreve com simplicidade desconcertante e alta qualidade literária a ideia revolucionária de que o ser vivo é uma estrutura maleável, tem plasticidade.”

 Na era da Pax Britannica – quando o sol nunca se punha no império –, Darwin sacudiu a mentalidade paroquial do homem comum; é o mundo onde eclode a Revolução Industrial e onde “a temporalidade está se acelerando”, considera Pimenta. “Ao mesmo tempo, Darwin propõe uma visão que vem da geologia: o tempo na escala humana não existe.” O geólogo Charles Lyell, aliás, é uma de suas maiores influências: seu Princípios da Geologia, nunca traduzido para o português, está na biblioteca do navio que pode ser “visitada” na mostra do Sesc.

“Em A Origem das Espécies, ele prova que a seleção natural atua em tudo o que é orgânico”, continua Pimenta. “Partindo da tradição científica de Newton, Darwin se respalda numa turma de intelectuais da pesada, Russel Wallace, Thomas Huxley, Lyell.” Em 1871, A Origem do Homem e a Seleção Sexual abordaria as mudanças do ser humano, inclusive dos instintos sociais na estruturação de senso moral, cultura e comportamento. “Não existe uma teoria tão boa quanto a que Darwin formulou”, atesta Pimenta. “O máximo que se consegue fazer é expandi-la.”

A dinâmica darwiniana envolve elementos aleatórios – clima, acidentes, desencontros – e se contrapõe à visão romântica de domínio da natureza pelo homem e a um “positivismo”, um progresso linear como nas teorias econômicas de Adam Smith, por exemplo. “Essa ideia moral de o homem ficando cada vez melhor não se aplica na evolução como Darwin apresenta”, explica Pimenta. “Na pandemia, um fenômeno biológico, nossa espécie respondeu às pressões de maneiras diferentes, às vezes muito mal. E do ponto de vista da fisiologia do sistema nervoso, as consequências mais graves da pandemia são as emocionais”, afirma Pimenta. 

O Beagle esteve na costa brasileira entre fevereiro e julho de 1832, e no retorno à Inglaterra em agosto. Darwin, além de observar e coletar amostras, horrorizou-se com a escravidão, no rastro dos avós abolicionistas. Essa e outras histórias estão na última sala, que traz uma linha de tempo vertical com amostras do solo da unidade Interlagos, coletadas na escavação de poços artesianos. “As mais profundas remontam a 650 milhões de anos”, conta Leda Cartum. Na sala ouve-se uma trilha especial de Luca Raele: improvisos de clarineta sobre cantos de aves brasileiras como o sabiá-laranjeira.

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